Tradução: James Baldwin, Minha prisão estremeceu (do livro The fire next time)

Quero compartilhar uma tradução que fiz de um texto de James Baldwin. Trata-se da carta My Dungeon Shook — Letter to my Nephew on the One Hundredth Anniversary of Emancipation, que integra o livro The fire next time, publicado em 1963.

O livro foi publicado numa época de grande agitação em torno das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. James Baldwin, um dos grandes autores negros estadunidenses, traz a temática racial ao longo de toda sua obra, e The fire next time é um de seus livros mais celebrados.

Antes de passar à tradução propriamente dita, faço duas observações: primeiro, optei por não traduzir o termo nigger, que é uma palavra com conteúdo extremamente ofensivo (tanto que muitas vezes a palavra nem é escrita por inteiro, mas mencionada como the ‘n’ word) no contexto estadunidense, sendo utilizado como xingamento dirigido a pessoas negras. Podemos pensar num significado próximo a preto sujo, neguinho, crioulo. A segunda observação é com relação ao uso intercalado de você e teu, tua. Optei por fazer tal utilização para manter um tom mais coloquial para a carta, que penso refletir melhor o conteúdo do texto original.

Minha prisão estremeceu: carta para meu sobrinho no centésimo aniversário da emancipação

Querido James,

   Cinco vezes eu comecei essa carta, e cinco vezes eu a rasguei. Eu fico vendo seu rosto, que é também o rosto de seu pai, meu irmão. Assim como ele, você é duro, sombrio, vulnerável, genioso – com uma tendência muito clara para soar truculento, porque você não quer que ninguém pense que você é frágil. Talvez você seja como seu avô quanto a isso, não sei, mas com certeza você e seu pai são muito parecidos com ele fisicamente. Bem, ele está morto, ele nunca te viu, e ele teve uma vida terrível; ele foi vencido muito antes de morrer porque, no fundo de seu coração, ele realmente acreditou nas coisas que as pessoas brancas disseram sobre ele. Essa é uma das razões pelas quais ele se tornou tão religioso. Eu tenho certeza que seu pai te falou algo sobre isso. Nem você nem seu pai mostram qualquer tendência para religiosidade: vocês são de uma outra era, parte do que aconteceu quando o negro deixou sua terra e veio para o que o falecido E. Franklin Frazier chamou de “cidades da destruição”. Você só pode ser destruído se acreditar que você é aquilo que o mundo branco chama de nigger. Eu te digo isso porque eu te amo, e, por favor, não se esqueça disso jamais.

Eu conheci vocês dois a vida toda, carreguei seu pai nos meus braços e ombros, beijei e bati nele e o vi aprender a andar. Não sei se você já conheceu alguém assim há tanto tempo; se você já amou alguém assim ao longo de tanto tempo, primeiro como bebê, depois como criança, depois como um homem, você passa a ter uma estranha perspectiva sobre tempo e dor e esforço. Outras pessoas não conseguem ver o que eu vejo sempre que eu olho o rosto de seu pai, pois por trás do rosto dele como é hoje estão todos os rostos que já foram dele. Quando ele gargalha, eu vejo um porão do qual seu pai não se lembra e uma casa da qual ele não se lembra, e eu escuto na risada de hoje a risada dele quando criança. Deixe-o praguejar e eu me lembro dele caindo dos degraus do porão, e reclamando, e eu lembro, com dor, de suas lágrimas, que minhas mãos e as de sua avó tão facilmente enxugavam. Mas as mãos de ninguém conseguem enxugar as lágrimas que ele derrama invisivelmente hoje, que podem ser ouvidas em sua risada e em suas falas e em suas canções. Eu sei o que o mundo fez ao meu irmão e como foi sufocante pra ele sobreviver a isso. E eu sei, o que é muito pior, e é esse o crime do qual eu acuso meu país e meus conterrâneos, e que nem eu, nem o tempo nem a história jamais perdoaremos, que eles destruíram e estão destruindo centenas de milhares de vidas, e não o sabem e nem querem saber. As pessoas devem ser, e na verdade se esforçam para ser duras e filosóficas com relação a destruição e morte, e é nisto que a maior parte da humanidade tem sido boa desde que se tem notícia dos seres humanos. (Mas lembre-se: a maior parte da humanidade não é toda a humanidade). Mas não é admissível que os autores da destruição também sejam inocentes. É a inocência que constitui o crime.

Agora, meu xará, esse povo inocente e bem intencionado, seus conterrâneos, fizeram com que você nascesse em condições não muito diferentes daquelas descritas pra nós por Charles Dickens na Londres de mais de cem anos atrás. (Eu ouço o coro dos inocentes gritando “Não, isso não é verdade! Como você é amargo!” – mas eu estou escrevendo esta carta para você, para tentar te dizer alguma coisa sobre como lidar com eles, pois a maioria deles sequer sabe que você existe. Eu sei as condições nas quais você nasceu, pois eu estava lá. Seus conterrâneos não estavam lá, e ainda não estão. Sua avó também estava lá, e ninguém jamais a acusou de ser amarga. Sugiro que os inocentes confirmem com ela. Não é difícil achá-la. Seus conterrâneos também não sabem que ela existe, embora ela tenha trabalhado pra eles durante as vidas deles inteiras).

Pois bem, você nasceu, aqui está, coisa de quinze anos atrás; e embora seu pai, sua mãe e sua avó, olhando as ruas pelas quais te carregavam, vigiando as paredes nas quais eles te trouxeram, tivessem todos os motivos se sentirem melancólicos e com os corações pesados, eles não o fizeram. Pois aqui você está, Grande James, batizado com meu nome – você foi um bebê grande, eu não – aqui você está: para ser amado. Para ser amado, meu caro, com força, de uma vez, e pra sempre, pra te fortalecer contra o mundo sem amor. Lembre-se disso: eu sei quão negro isso parece hoje pra você. Parecia ruim naquele dia também, sim, nós estávamos tremendo. Nós ainda não paramos de tremer, mas se nós não tivéssemos amado uns aos outros, nenhum de nós teria sobrevivido. E agora você deve sobreviver porque nós te amamos, e pelos seus filhos, e pelos filhos dos seus filhos.

Este país inocente te jogou num gueto no qual, de fato, era esperado que você morresse. Deixe-me colocar com todas as letras exatamente o que eu quero dizer, pois o coração da matéria está aqui, bem como a origem da minha luta com meu país. Você nasceu onde nasceu e encarou o futuro que encarou porque você é negro e por nenhum outro motivo. Esperava-se que os limites de sua ambição estivessem, então, estabelecidos pra sempre. Você nasceu numa sociedade que disse com todas as letras e com brutal clareza, e de tantas maneiras quantas fossem possíveis, que você era um ser humano sem valor. Não era esperado de você que aspirasse a excelência: esperava-se que você se conformasse com a mediocridade. Onde quer que você tenha ido, James, eu seu curto tempo nesta terra, foi dito a você onde você poderia ir e o que poderia fazer (e como poderia fazê-lo) e onde poderia viver, e com quem poderia se casar.

Eu sei que seus conterrâneos não concordam comigo sobre isso, e eu os ouço dizer “Você está exagerando”. Eles não conhecem o Harlem, e eu conheço. Você também. Não aceite as palavras de ninguém para nada, inclusive as minhas – mas confie na sua experiência. Saiba de onde você veio. Se você souber de onde você veio, não haverá de verdade nenhum limite para onde você pode ir. Os detalhes e símbolos de sua vida foram deliberadamente construídos para fazer você acreditar no que as pessoas brancas dizem sobre você. Eu te peço, tente lembrar que o que eles acreditam, bem como o que eles fazem e causam sofrimento em você, não atestam a tua inferioridade, mas sim a desumanidade deles, e o medo.

Por favor tente ser claro, meu querido James, em meio à tempestade que enfurece sua jovem cabeça hoje, sobre a realidade que está por trás das palavras “aceitação” e “integração”. Não há motivo pra você tentar ser como as pessoas brancas, e não há base alguma para a impertinente suposição deles de que eles devem aceitar você. O que é verdadeiramente terrível, meu camarada, é que você deve aceitá-los. E eu digo isso muito seriamente. Você deve aceitá-los, e aceitá-los com amor. Pois esse povo inocente não tem outra esperança. Eles estão, na verdade, ainda presos a uma história que eles não entendem; e até que eles a entendam, eles não podem ser libertados. Eles tiveram que acreditar, por muitos anos e por inúmeras razões, que os homens negros são inferiores aos homens brancos.

Muitos deles, na verdade, sabem que não é assim, mas, como você descobrirá, as pessoas acham muito difícil agir de acordo com o que sabem. Agir é estar comprometido, e estar comprometido é estar em perigo. Nesse caso, o perigo, nas mentes de muitos americanos brancos, é a perda de suas identidades. Tente imaginar como você se sentiria se você acordasse uma manhã e encontrasse o sol brilhando e todas as estrelas em chamas. Você ficaria apavorado porque está fora da ordem natural. Qualquer perturbação no universo é assustadora porque ataca profundamente o senso de realidade. Ora, o homem negro tem funcionado no mundo do homem branco como uma estrela fixa, um pilar imóvel: e à medida que ele se move, céu e terra são chacoalhados desde as profundezas.

Você, não tenha medo. Eu disse que era esperado que você fosse destruído no gueto, morresse por nunca ser permitido ir além das definições do homem branco, por nunca ser permitido soletrar seu próprio nome. Você, e muitos de nós, derrotamos essa intenção; e, por uma terrível lei, um terrível paradoxo, aqueles inocentes que acreditavam que teu aprisionamento os deixaria mais seguros, agora perdem a compreensão da realidade. Mas esses homens são seus irmãos – seus perdidos e mais novos irmãos. E se a palavra integração significa algo, isto é o que ela significa: que nós, com amor, devemos forçar nossos irmãos a se enxergar como são, a parar de escapar da realidade e começar a mudá-la.  Pois esta é a sua casa, meu amigo: não permita que te expulsem dela; grandes homens alcançaram grandes feitos aqui, e o farão de novo, e nós podemos fazer da América o que a América deve ser.

Será difícil, James, mas você descende de fortes camponeses, de homens que colheram algodão e represaram rios e construíram estradas de ferro e que, enquanto passavam pelos mais indescritíveis terrores, alcançaram uma inquestionável e monumental dignidade. Você vem de uma longa linhagem de grandes poetas, alguns dos maiores desde Homero. Um deles disse “No instante em que pensei não haver mais solução, minha prisão estremeceu, e as correntes foram ao chão”.

Você sabe, eu sei, que o país celebrará cem anos de liberdade, cem anos muito em breve. Nós não poderemos ser livres até que eles sejam livres. Deus te abençoe, James, e que Ele te acompanhe.

Seu tio,

James

Teófilo Reis
Teófilo Reis é homem negro cis.

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