Não amarás – Teófilo Reis

Polônia, década de 1980. Um homem jovem fica obcecado por uma mulher mais velha que ele. Ele a espiona, providencia formas invasivas de encontrá-la, viola sua correspondência, procura maneiras de boicotar os encontros românticos de sua admirada. Depois de algum tempo nutrindo um amor platônico, o jovem finalmente se declara e diz estar amando. O sentimento não é correspondido: inicialmente a resposta é ríspida, e num segundo momento, sarcástica. O jovem tenta se matar, e sua musa se enche de um sincero sentimento de culpa pelo ocorrido.

    O parágrafo acima é meu resumo do filme Não amarás, dirigido pelo polonês Krzysztof Kieslowski.

    Brasil, anos 2000. Um homem jovem e negro desde a tenra infância é visto como um futuro garanhão. A sexualidade descontrolada e selvagem, que desde então atribuem à criança, é tida como chave de leitura para seu futuro. Suas ações são vistas de forma sexualizada: toda aproximação com relação a meninas é tida como mostra do apetite sexual. A ojeriza a tocar outros homens também é estimulada desde pequeno. Qualquer atitude que possa vir a ser interpretada como o que se considera feminina é prontamente coibida e ridicularizada.

    As possibilidades de afeto na vida de um homem negro são atravessadas não só pela masculinidade, mas também pela negritude. Há questões importantes que devem ser levadas em consideração quando voltamos nossa atenção para o afeto na vida dos homens negros. Como podemos pensar a possibilidade de afeto ao mesmo tempo em que a imagem que se faz do homem negro é a de um predador sexual com uma tendência inata para a violência? Como se dar direito ao afeto quando a auto-imagem é frequentemente calcada em valores desumanizantes?

    A masculinidade tida como padrão impõe aos homens, desde pequenos, uma série de proibições que devem ser observadas para se “garantir” o merecimento do título de homem. Na sociedade machista em que vivemos, esse padrão comportamental é tido como o natural, o correto. Qualquer desvio, por mínimo que seja, implica numa imediata reclassificação, passando-se do que nossa sociedade misógina classifica como céu diretamente para o que é tido como o inferno: o homem torna-se uma mulherzinha. A este padrão de comportamento dividido por gênero acrescenta-se um componente racial, que retira das pessoas negras sua humanidade e as dota de sexualidade e brutalidade: saem de cena seres humanos negros e sobem ao palco da história brasileira a mulata fogosa e o negão insaciável, ambos excelentes para o sexo e para o trabalho pesado, mas indignos de respeito, pois são violentos, estúpidos e pouco confiáveis. Se não são dignos de respeito, o que dizer de cuidado, de carinho, de amor?

    Como sujeitos inseridos na sociedade, muitos de nós, homens negros, tendemos a nos comportar como os demais homens, e portanto a ter comportamentos machistas. A aceitação tácita de uma noção tacanha de masculinidade – opressora por si só, e em especial para nós negros – cria barreiras que podem dificultar nossa capacidade de estarmos abertos para dar e receber afeto. Se para entrar no clubinho da masculinidade há um preço a se pagar, o ingresso dos homens negros é mais caro que o dos homens brancos: nossa sexualidade é mais vigiada, nosso corpo deve se encaixar num estereótipo, nossas preferências precisam estar de acordo com o que desejam de nós, e não com o que de fato desejamos.

    Enquanto indivíduos que vivem numa sociedade hetero e cis-normativa, infelizmente também estamos propensos a reproduzir atitudes precoceituosas com relação a sexualidades e identidades de gênero. Precisamos descontruir em nós os preconceitos, precisamos lembrar que afeto e ato sexual são coisas distintas, para que possamos receber mais afetos e ser mais afetuosos. Quantos de nós não deixam de abraçar ou beijar outros homens próximos a nós, como pai e irmãos?

    Os efeitos do racismo por si só já são pesados demais para que tenhamos que carregar adicionalmente o fardo de uma noção obtusa de masculinidade. Penso que a saída – coletiva e a longo prazo – não está em “subir o valor do ingresso” pra todo mundo. Se for interessante manter o clubinho da masculinidade existindo (e acho interessante pensar se realmente vale a pena), precisamos, no mínimo, de uma mudança radical. Precisamos de masculinidades leves e não opressivas, que não imponham obstáculos para a felicidade. Precisamos de uma sociedade sem racismo, sem machismo, sem transfobia, sem lgbt-fobia, sem discriminações. Enquanto lutamos para construir essa sociedade, vamos levando nossas vidas. Vamos resistindo e questionando o lugar de ausência de afetos que nos foi relegado. Ao não amarás que nos é dito, respondemos com a crítica de que objetificação não é amor, obsessão não é carinho, controle não é cuidado, e que queremos afetos verdadeiros. Na nossa versão de Não amarás, não aceitaremos abuso como se fosse algo bom, e não nos sentiremos culpados por fazê-lo.

    Encerro com um relato bastante pessoal. Aqueles que me conhecem pessoalmente sabem que sou bastante reservado. Há algum tempo percebi que eu tinha dificuldade de tocar as pessoas, mesmo as mais próximas. Aos poucos comecei a me questionar os motivos desta dificuldade, e tentei contorná-la, por ser algo que eu percebia estar me distanciando de pessoas queridas. Neste processo de entendimento de minhas atitudes, medos e reservas, me conheci melhor, entendi melhor meu lugar na sociedade. Do não amarás até o amarás a ti mesmo e aos próximos, o caminho é longo, mas a jornada é muito gratificante. Para aqueles que tiveram sua humanidade negada, o amor a si próprio e aos seus impõe uma derrota a uma ideologia que há tempos paira sobre nossa sociedade e nossos ombros. Sigamos cada vez mais vitoriosos.

Teófilo Reis
Teófilo Reis é homem negro cis.

2 comentários sobre “Não amarás – Teófilo Reis

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