Não precisamos falar sobre o Holiday (ou Da espantosa humanidade dos negros)

A recente eleição de Fernando Holiday, uma das lideranças do MBL – Movimento Brasil Livre, para a Câmara paulistana promoveu nova onda de comentários acerca dos posicionamentos do futuro vereador de São Paulo. Holiday é negro e gay, e se posiciona contra pautas historicamente defendidas pelos movimentos negros, como a política de cotas raciais e a comemoração do dia 20 de novembro como dia da consciência negra. Para muitas pessoas as posições de Holiday geram espanto: como pode um negro ser contra o movimento negro? Entender a essência de tal espanto é importante e revelador. E para fazer isso, não precisamos falar sobre o Holiday.

Começo por pontos que deveriam ser obviedades: negros são humanos, e humanos são diversos. Portanto, a diversidade entre os negros não deveria gerar nenhum tipo de surpresa. O fato de a política brasileira há tempos ser dominada por homens brancos e ainda assim exibir uma pluralidade de visões mostra que pertencimento étnico-racial não determina alinhamento político. Por que, então, espera-se que todos os negros tenham o mesmo posicionamento político? O racismo apaga singularidades e subjetividades e desumaniza as pessoas negras, reduzindo-as a uma única coisa: uma massa negra. Despidas de sua humanidade, as pessoas negras passam a ser um todo homogêneo, sem distinções interiores.

Uma das consequências da diversidade negra é a existência de debates internos. Debater é saudável, e um debate sério pode produzir muitas coisas interessantes. No entanto, quando o debate se dá entre negros, não é incomum vermos setores brancos politizados (lembremos: o racismo no Brasil é ambidestro) usar a existência de divergência como arma para desqualificar a questão: “nem eles mesmos sabem o que querem!”. A ausência de homogeneidade entre brancos nunca foi impeditivo para nada. Aliás, sempre foi considerada como prova de sofisticação, pois enriquece o debate e demonstra a convivência democrática com a pluralidade. Se a ausência de homogeneidade ocorre entre negros, aí a coisa muda de figura: o discurso da sofisticação é substituído pela visão de um povo que não sabe o que quer, que é briguento e discute por coisas sem importância.

Superada a primeira obviedade e sabendo que os negros não são monolíticos, passo à segunda obviedade: discussão política se faz com argumento político, não com racismo. Na arena política, não vale tudo pra ganhar um debate, e lançar mão de racismo para derrotar um interlocutor negro, por mais tacanho que tal interlocutor possa ser (pois da humanidade dos negros decorre a existência de negros de diversos tipos, incluindo negros brilhantes e também negros tacanhos), é tão criminoso quanto atitudes racistas em outros contextos. Para muitas pessoas pode parecer que discordar de um interlocutor negro já é, por si, um ato de racismo. Embora tal visão seja tola, ela se integra bem ao raciocínio daqueles que enxergam os negros como homogêneos: com tal suposição, atacar um negro é quase como atacar a negritude. De forma análoga, ter um único amigo negro atesta proximidade com todos os negros, e assim obtemos de forma lógica o famoso “Não sou racista, tenho um amigo negro”. É fácil perceber que além da suposição da homogeneidade, há outro erro no raciocínio: a confusão entre argumento e argumentador.

É interessante lembrar dos ensinamentos de Cornel West, filósofo negro estadunidense. No texto As armadilhas do raciocínio de base racial, publicado em 1994, West relembra o caso da indicação de Clarence Thomas, figura problemática para o movimento negro de seu país, à Suprema Corte no governo Bush. Para West, a adoção de noções rebaixadas de negritude e autenticidade negra fez com que o movimento negro tivesse dificuldade para criticar Thomas. West enfatiza que, para além do aspecto físico, a negritude também é composta por escolhas éticas e políticas relacionadas ao combate ao racismo. Na ausência de uma concepção amadurecida de identidade negra, os debates políticos ficam rebaixados a uma questão de pigmentação, criando, nas palavras de West, “um enganoso manto de consenso racial”.

Reconhecer a humanidade dos negros não é nenhum favor. Eu, negro, não agradeço ninguém por reconhecer que sou humano. Tal reconhecimento é, no campo político, condição necessária para existência de uma política minimamente séria. Aqueles que não conseguirem digerir as consequências da humanidade negra continuarão nadando contra a corrente, numa tentativa frustrada de sobreviver a uma avalanche de fatos que contrariam suas análises rasas. Que se afoguem todos.

Teófilo Reis
Teófilo Reis é homem negro cis.

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