Modos de ser homem negro: Teófilo Reis

Nós, homens negros, precisamos conversar. E o assunto da conversa deve ser nós mesmos. Sim, precisamos conversar sobre as diferentes masculinidades e como o racismo impacta nossas vivências. Precisamos compreender que mesmo sendo tão diversos, temos algo em comum: somos homens negros.

bell hooks inicia seu texto Alisando o nosso cabelo reconstruindo um momento rotineiro de sua infância: as manhãs de sábado, quando as mulheres se reuniam para alisar seus cabelos. O alisamento, que simbolizava também o abandono da infância para adentrar o mundo das mulheres, era também um momento de cuidado umas com as outras e consigo mesmas. Em outro texto (Vivendo de amor), hooks fala da importância da vida emocional. É sobre esta importância que quero pensar um pouco.

Vivemos numa sociedade profundamente racista. O racismo à brasileira deteriora tudo o que toca, e quase nada escapa de seu alcance. Até mesmo a vida é relativizada pelo racismo: uma morte é uma tragédia, mas a execução de cinco jovens negros é tida como um mero despreparo policial, ou no máximo como um problema que não tira o sono de quase ninguém. Parece-me muito nítida a mensagem que nós homens negros recebemos da sociedade: nós somos descartáveis.

Mesmo descartáveis, aqui estamos. Isto significa que a carga do racismo ficou para trás? De forma alguma! Nossos corpos são animalizados, hipersexualizados e valorizados apenas para os trabalhos mais precários. Nossos traços são lidos como sinais de que somos potencialmente perigosos, violentos, inimigos da ordem e da civilização.

Nesse salve-se quem puder, cada um sobrevive como pode. Mas o jogo é cruel: não existe maneira de vencê-lo. Enquadrar-se no padrão admissível (ou seria melhor dizer tolerável?) de homem-negro-cis-hétero signifca resignar-se a um lugar social pré-estabelecido e sufocar as potencialidades da vida emocional, já que a masculinidade padrão assim o exige, e a negritude é lida como reforçadora do aspecto da força e da brutalidade. Desviar do padrão é submeter-se a mais uma série de obstáculos: homem-negro-trans tem, de partida, o não-reconhecimento de sua identidade por grande parte da sociedade; a homo/bi/a-sexualidade também leva a obstáculos adicionais. Em todos os casos, a vida emocional fica sufocada, quase impossibilitada de se desenvolver.

O cuidado de si e dos seus, como descrito por bell hooks, é uma forma de injetar novo fôlego na vida emocional. Para que tal feito se efetive, é necessário haver o reconhecimento de si mesmo como merecedor de cuidados, e também é preciso identificar aqueles que serão reconhecidos como os “seus”. Assim é fundamental olharmos uns para os outros de forma fraterna. Nós já somos vistos como um grupo, como uma fraternidade, pela sociedade que nos extermina. Precisamos resignificar essa fraternidade negra para que possamos descontruir um processo histórico que nos faz ser vistos como não merecedores de respeito ou nem dignos de afetos positivos.

Nós, homens negros, precisamos conversar. Conversar entre nós, e também com nossas companheiras mulheres negras, que já se articulam para pensar o cruzamento das questões de raça, gênero e sexualidade. Nós homens negros precisamos ouvir nossas companheiras, precisamos aprender. Nós precisamos resistir, sobreviver e ir além: precisamos viver.

Teófilo Reis
Teófilo Reis é homem negro cis.

Um comentário sobre “Modos de ser homem negro: Teófilo Reis

  1. Parabéns, você expressou o que sinto e não conseguia externalizar. Também acho que “Nós, homens negros, precisamos conversar”. Muito obrigado pelas palavras querido Teófilo.

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