Mercado negro dos afetos

Ao longo da construção de minha masculinidade, sempre me foi posto a masculinidade hegemônica como um ideal a ser perseguido, como um ponto de chegada a minha caminhada. Esta, porém, sendo branca, classista, normativa e opressora, sempre se pôs a mim como algo inalcançável.

Dentro da subjetividade negra e transmasculina, não há como negar o limbo que nos é imposto perante o imaginário social e o mundo dos afetos. Enquanto mulher negra, foi me ensinado que quanto menos questionasse, mais seria aceita. Que não era de bom tom bancar a “louca”, assim, aceitando tudo de forma muito pacífica. Por outro lado, observo escrevivências de homens negros cisgêneros que também tiveram em sua socialização uma cartilha a seguir, afinal, são séculos de uma reputação viril, maquinada, e até me arrisco a dizer, coisificada. Ousar a desviar de ambos os padrões, é apostar em deboches, escárnio e até mesmo afastamento social.

Muitas são as subjetividades e problemáticas que perpassam a afetividade negra. A coisificação do homem negro, negando sua condição humana, restringindo-se unicamente a suas aptidões físicas e sexuais. Corpos que não só geram desconfiança, mas também corpos que despertam curiosidades e fetiches. Fetiches estes que, quando lançados, influenciam diretamente as relações interpessoais e afetivas, ocorrendo anulação das subjetividades e declínio da afetividade.

Quantos romances em novelas, teatros ou cinemas foram protagonizados por homens negros? Na vida real não é muito diferente. Como bem nos lembra Fanon (1983), a característica principal do homem negro é sua cor, sua etnia e, como tal, não possui sexualidade e sim sexo – um atributo que exala masculinidade ao mesmo tempo em que se assemelha a um animal em contraste com o homem branco. Ainda hoje, podemos observar esse estereótipo do imaginário social ainda ser reproduzido em várias esferas artísticas.

Não podemos esquecer também dos recortes corporais e indenitários. Na esfera homoafetiva masculina, por exemplo, onde gays negros afeminados são rechaçados, vítimas de agressões, chacotas e também solidão. Há também os homens trans negros, que são altamente cobrados por não exercerem a masculinidade negra genuína, reforçando a coisificação e falocentrismo que permeia a negritude masculina. E quantos de nós, negros e negras, compactuamos com isso? Quantos de nós ignoramos as subjetividades humanas além da cor e não adotamos discursos e pensamentos interseccionais?

No ensaio “Vivendo de amor”, Bell Hooks nos esclarece alguns pontos: “A prática de se reprimir os sentimentos como estratégia de sobrevivência continuou a ser um aspecto da vida dos negros, mesmo depois da escravidão. Como o racismo e a supremacia dos brancos não foram eliminados com a abolição da escravatura, os negros tiveram que manter certas barreiras emocionais. E, de uma maneira geral, muitos negros passaram a acreditar que a capacidade de se conter as emoções era uma característica positiva. ”

Infelizmente assim, muitos de nós continuam. Interpretando papéis impostos, negando vontades, nos colocando em segundo plano.

Já não faço mais contas de quantas vezes ao cumprimentar os homens – em sua grande maioria negros – preferiram apenas um sinal com a cabeça, a contato físico (como um aperto de mão), agindo como alguém que preserva sua masculinidade. Não tento mais me inserir. A legitimação de pertencimento ao ‘clube do bolinha’, muita das vezes perpassa por machimos, misoginias, lgbtfobias, entre outras opressões. Não abro mão da minha feminilidade masculina.

Hoje, recusar minha ‘passabilidade’ (um tipo de privilégio por ser reconhecido socialmente como um homem cisgênero – não trans) de modo a afirmar minha transgeneriedade é um ato polítco. Reivindico meu direito e me permito ser um monstro. Um monstro que também é digno de receber e prover afetos.

 

FANON, Frantz. Peles Negras, Máscaras Brancas. Rio de Janeiro: Fator. 1983

HOOKS, Bell. Vivendo de amor. Disponível em: < https://drive.google.com/file/d/0B2_ZK-qR9WEKZDk4ZTM3MDQtNTlkZS00NjAxLTkyYWQtMDc4YzUwNDgxYmY4/view?pref=2&pli=1>  Traduzido por Maísa Mendonça

Patrick Lima
Jornalista, Homem trans militante e ativista. Assessor de imprensa e Coordenador Estadual do IBRAT. Membro dos coletivos PreparaNem e FONATRANS.
Patrick Lima

Sobre Patrick Lima

Jornalista, Homem trans militante e ativista. Assessor de imprensa e Coordenador Estadual do IBRAT. Membro dos coletivos PreparaNem e FONATRANS.

5 comentários sobre “Mercado negro dos afetos

  1. Patrick, mudei muito para perceber as dores contidas em tua mensagem. Ser casado com uma mulher cis feminista assim como conviver com gays e lésbicas contribuiu bastante para isto. Em boa parte, nossas cartilhas da puberdade (revistas masculinas, o papo da molecada no futebol ou na escola, os livros didáticos, os comerciais de TV, as novelas etc), nos levam à heteronormatividade, interseccionada por hierarquias de cor e classe dos(as) sujeitos(as). Estar neste lugar nos traz privilégios (banheiros H e M, empregos etc). O lugar para gays e lésbicas, assim, tem de ser outro, ainda mais para pessoas trans. Dos meus privilégios de homem negro, bem sucedido e hétero, agradeço por ler teu texto, mas também me calo, te escuto e me solidarizo.

  2. “A coisificação do homem negro, negando sua condição humana, restringindo-se unicamente a suas aptidões físicas e sexuais. Corpos que não só geram desconfiança, mas também corpos que despertam curiosidades e fetiches. Fetiches estes que, quando lançados, influenciam diretamente as relações interpessoais e afetivas, ocorrendo anulação das subjetividades e declínio da afetividade.”

    Proponho a ideia de ter um espaço para discussão sobre a: Solidão do homem negro.

  3. Venho refletindo muito sobre isso e da importância de olhar com respeito as mazelas que o homem negro tbm vive. Os homens tbm precisam falar sore as dores e angustias que os cercam, que muitas vezes contribuem para o aumento da violência, violência essa contra os outros e ele mesmo e seu adoecimento. O machismo tbm mata o homem e de diversas formas, entre elas o silenciamento de seus sentimentos.
    Super concordo num espaço que o homem negro tenha liberdade de falar sobre a sua solidão.

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