Visibilidade Trans pra quem? Parte II – Um olhar Transmasculino Negro

Nesta mesma data no ano de 2016 eu escrevi o meu olhar sobre as Transfeminilidades Negras.
Hoje vou falar de um local mais específico: o de homem negro trans.

Será que a visibilidade trans, tem transmasculinidades negras?
De uma maneira geral, homens trans e pessoas transmasculinas ainda são invisibilizados. De diversas maneiras e lugares. Tivemos avanços sim, mas ainda percebo uma enorme lacuna sobre as transmasculinidades. Quando esquecem de inserir temas transmasculinos numa programação T ou LGBT, quando somos diminuídos ou colocados e comparados a homens cis, quando não percebem que nossas especificidades são diferentes de demais pessoas trans e tantos outros exemplos que poderia citar aqui. Tudo isso é invisibilização e em alguns casos transfobia.

As vezes tenho a impressão que a presença transmasculina não é bem-vinda. Ser deixado de lado remete a esse pensamento, mesmo que não seja essa a intenção.

Acredito que exista uma grande confusão entre leitura social que muitos homens trans passam a ter e o que de fato é a transmasculinidade. Ter leitura de homem cis – é apenas uma confusão e uma percepção errada que fazem dos homens trans – até porque não sabemos como vamos ficar, socialmente falando, e isso vale para qualquer pessoa trans que faz reposição hormonal, procedimentos cirúrgicos e demais reconstruções corporais. Essa confusão tem relação com atitudes e comportamentos, não entendimento do corpo transmasculino; que nem sempre vai ter o corpo cisgênero como referência por diversos motivos; e determinadas posturas relacionados a masculinidade que são esperados dos homens trans, mas que nem sempre, devido a pluralidade das transmasculinidades acontecerá o que se espera.

Homens trans têm privilégios sim, principalmente de leitura social devido a testosterona, mas a questão é: até que ponto essa leitura protege? E que visibilidade é essa? Dependendo da subjetividade e especificidade do homem trans essa leitura pode se transformar em outra coisa. Como é o caso de homens negros trans.

A cor da pele ligada a leitura social racista do que é ser homem negro, faz com que toda a dimensão de “passabilidade” tenha outro sentido. Os homens negros trans passam a sofrer toda a carga de racismo assim como homens negros cis passam. E dentro dessa masculinidade negra entra demais especificidades que fazem com que a leitura social de ser homem negro caracterize ser ameaça, violência, cobrança de mais virilidade e etc.
Dependendo da marcação que é percebida ou não, as percepções são diferentes. Ser homem negro trans gay, homem negro trans nordestino, ser homem negro trans grávido, ser homem negro trans bissexual, ser homem negro trans gordo, ser homem negro trans com deficiência e por aí vai. Esses são apenas alguns exemplos dentre tantos outros. E entre esses e demais, podem se interligar, fazendo com que as interseções fiquem maior.

Estupro, baculejo de policial, leitura de ameaça são apenas alguns dos medos e receios que homens negros trans, com o tempo passam a perceber que sofrem ou podem vir a sofrer. Essa violência cai com muita força e faz com que muitos homens negros trans fiquem receosos, já que a leitura anterior que era de objeto, hoje passa a ser de ameaça.

Existe também a solidão que muitos homens negros trans passam, por serem cobrados os esteriótipos da masculinidade negra, que muitas vezes é racista e oriunda da época da escravidão.

Ser viril e forte por exemplo, nem sempre será um desejo. E isso deveria ser respeitado para todos os homens negros. O fato do corpo transmasculino negro não possuir um determinado tipo de corporeidade, de genital (da mesma maneira que é esperado de um homem cis negro um pênis grande), faz com que as relações sexuais, afetivas e românticas seja afetada. A priore a “passabilidade” protege socialmente, no íntimo ao se relacionar com as pessoas é questionado determinadas fatores. Por exemplo: o tamanho do genital, qual o genital, virilidade e tudo que é ou pode ser esperado culturalmente da masculinidade negra. Entra aqui também, preconceitos de classe e elitismos que se misturam a características racistas. Ou seja, querem um homem normativo, binário e nem sempre vão encontrar. E isso acaba fazendo com que muitos sejam apenas usados pra sexo. E não que isso seja problema, mas ser objeto sexual, dependendo do contexto também pode ser lido como racismo. Vide a masculinidade e virilidade imposta e esperada do homem negro.

O Brasil é o pais que mais mata pessoas travestis e trans, dentre essas mortes a maioria são pessoas travestis e mulheres trans negras. Homens trans também estão morrendo, estão sendo estuprados, não vão a ginecologistas – por diversos medos e receios – e tudo isso também é violência.  Existem determinados temas que precisam ser mais abordados. Esses são alguns exemplos. Tais temas atrelados a questão racial pode ser mais um fator que vai impedir acessos e gerar transfobia e racismo.

Todas as questões que homens negros trans ou demais homens trans passam não é justificativa pra ser machista, misógino, produzir e reproduzir demais preconceitos. Seja com mulheres ou qualquer outra pessoa. É preciso estar atento para não cair na armadilha do patriarcado. Não se pode naturalizar opressões e violências por ser homem. Opressão e violência não pode ser usado pra legitimar masculinidade.

Enquanto homens trans, a reflexão em pensar as violências e abusos como algo que não deve existir e que precisa ser minimizado sempre. Não se pode compactuar com violências. Muitos, principalmente os que fizeram a adequação de gênero mais tarde, que já vivenciaram essas mesmas opressões antes da adequação/transição de gênero. Homens negros trans e demais homens trans devem ser homens melhores, pois são diferentes dos homens cis. A transmasculinidade passa por outros lugares, teve outros atravessamentos. Homens trans podem mostrar aos demais homens que não precisa ser/ter uma masculinidade tóxica.

As referências de transmasculinidades negras vem crescendo no Brasil. Essa representatividade positiva é muito importante. Hoje temos mais homens negros trans que podem ver no outro alguém igual. Ajudar nesse empoderamento é muito relevante, por diversos motivos que foram citados aqui. A questão racial é determinante para entender o lugar pelo qual homens negros trans perpassam que é bem diferente de demais homens trans.

Empoderar, visibilizar homens negros trans para estarem em diversos espaços é importante pra se fazer valer a representatividade plural das transmasculinidades.

Existimos, resistimos e vivemos.

Leonardo Peçanha
Leonardo Peçanha é Professor de Educação Física. Especialista em Gênero e Sexualidade, Mestre em Ciências da Atividade Física.
Homem Trans. Ativista Transfeminista Negro. Membro apoiador do Comitê Desportivo LGBT do Brasil.
Idealizador desse site.
Leonardo Peçanha

Sobre Leonardo Peçanha

Leonardo Peçanha é Professor de Educação Física. Especialista em Gênero e Sexualidade, Mestre em Ciências da Atividade Física. Homem Trans. Ativista Transfeminista Negro. Membro apoiador do Comitê Desportivo LGBT do Brasil. Idealizador desse site.

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