Precisamos falar sobre racismo no meio LGBT como algo central, não apenas como detalhe.

Ontem, após sair do evento Corpo: artigo indefinido – uma reflexão sobre gênero, fui até a Lapa encontrar minha namorada. Sentamos num bar onde costumamos ir, um boteco bem bacana que vende cerveja barata na Gomes Freire. Logo após chegou um grupo grande de homens brancos cis gays, um deles perguntou ao dono do bar se tinha refrigerante, queriam beber cerveja, mas queriam refri também. O cara do bar disse algo que parecia uma resposta negativa. Eu entendi como se ele tivesse lendo eles como gays e disse que não tinha refrigerante pra eles não sentarem no bar, eu sei que vende refrigerante lá. Nesse momento eu olhei com cara de espanto: como assim, não tem refri?! Tem sim. Eu me espantei me preparando pra falar algo a favor dos gays caso o dono do bar dissesse algo homofóbico. Mas acredito que foi apenas um mal entendido e o dono do bar que é um senhor deve ter falado algo que entendemos errado. Então, eles entraram e esse cara que chegou perguntando, veio cumprimentar eu e minha namorada, apertando a nossa mão.

De repente, esse mesmo cara que entrou e veio nos cumprimentar, começou a falar em tom alto e em bom som para que todas as pessoas do bar pudessem ouvir, um discurso racista bem pesado. Coisas do tipo: pessoas negras se vitimizam muito, pessoas negras só arrumam confusão, a polícia antigamente usou os capoeiristas pra serem policiais, por serem negros pra revidar a violência, que era palhaçada quando uma pessoa negra diz para não tocar no cabelo dela e que tanto pessoas negras quanto brancas tem os cabelos tocados, etc e etc…

Eu fiquei muito incomodado e muito furioso, mas a minha namorada disse que era isso que eles queriam que eu sentisse, que ele estava falando aquilo pra nos atingir. Então, eu comecei a dar o troco na mesma moeda e disse em alto e bom tom: sou um homem negro sim com muito orgulho e também sou LGBT, sou homem de buceta, homem trans. E que as pessoas terão que respeitar homens de buceta e mulheres de pênis sim. Sou liderança do movimento de homens trans e que não ia ser nenhuma bicha branca que ia ser racista comigo e estragar o meu final de noite.

Logo após pagamos a conta e levantamos, e o tal cara racista veio me dizer que eramos conhecidos – debochando – e eu com a cara fechada disse que não era não, e fomos embora.

Ao chegarmos próximo da casa de minha namorada, parte do grupo de gays nos encontrou e disse que estavam no bar, mas que o rapaz amigo deles tinha ido pra outra direção e que aquela situação foi muito complicada, que o rapaz é realmente preconceituoso, que tinha sido chamado atenção de um outro rapaz negro, do grupo jovem o qual fazem parte, grupo jovem do movimento de hiv/aids. Vieram se desculpar. E eu ainda tive que ouvir, de um deles, que foi bom o que aconteceu que ensinou a eles questões que eles não conheciam. E eu falei que não foi bom pra mim, que eu não precisava passar por aquilo pra ninguém aprender nada, e que eu também não tinha visto nenhum movimento deles repreendendo a atitude racista dele.

O que quero mais uma vez ilustrar com tudo isso: não tem como apagar o meu passado, não tem como diferenciar ou separar o fato de eu ser negro, ser trans. Eu sou um homem negro trans e a minha vivência e experiência perpassa por isso. São violências específicas que desde que comecei a ser lido socialmente como homem negro, que venho passando. Antes, quando a leitura era outra, as violências eram outras. E falo aqui de mim. Lidar com esses tipos de violências racistas que também são transfóbicas, não separo uma violência da outra porque entre elas e no meio delas existem violências subjetivas que se entrelaçam, tem sido muito dolorido pra mim. Acredito que violências parecidas acontecem com demais homens negros trans.

Homens negros cis e trans, precisamos nos unir. Precisamos dialogar mais, precisamos trocar estratégias de defesa, estratégias de sobrevivência, porque essa violência desgasta. E é corriqueiro para todos os homens negros. Pra mim em específico, quando comecei a ser lido socialmente como homem e isso tem sido muito desgastante. E acredito que pra demais homens negros trans também. A verdade é que ninguém, cis ou trans, merece viver isso!

Ser lido como ameaça, dói. Ser lido como alguém que vai fazer algo ruim, dói.

Minha masculinidade não perpassa por isso, minha subjetividade transmasculina teve acesso a outras experiências que fazem da minha masculinidade diferente. E isso não quer dizer que eu não tenha privilégios ou que não erre enquanto homem, mas que a minha masculinidade é diferente da que acham que eu posso vir a ser.

No dia internacional do orgulho LGBT, teve bicha cis branca sendo racista. Infelizmente isso é corriqueiro, cotidiano. Até quando vamos achar que isso é detalhe? Quando vamos dialogar de maneira séria e passar a levar as questões de raça e classe como central dentro do movimento trans e LGBT?

Precisamos dialogar, homens negros. Precisamos trocar experiências. Minha adequação de gênero e minha leitura social, não me tornou invisível e muito menos me protege. Nenhum homem, cis ou trans, é uma ameaça apenas por ser negro. Somos seres humanos.

Vamos conversar homens negros, todos nós cis e trans. Precisamos.

Leonardo Peçanha
Leonardo Peçanha é Professor de Educação Física. Especialista em Gênero e Sexualidade, Mestre em Ciências da Atividade Física.
Homem Trans. Ativista Transfeminista Negro. Membro apoiador do Comitê Desportivo LGBT do Brasil.
Idealizador desse site.
Leonardo Peçanha

Sobre Leonardo Peçanha

Leonardo Peçanha é Professor de Educação Física. Especialista em Gênero e Sexualidade, Mestre em Ciências da Atividade Física. Homem Trans. Ativista Transfeminista Negro. Membro apoiador do Comitê Desportivo LGBT do Brasil. Idealizador desse site.

Um comentário sobre “Precisamos falar sobre racismo no meio LGBT como algo central, não apenas como detalhe.

  1. Que situação triste, Leonardo. Sinto muito. Realmente, o racismo na comunidade LGBT é visto corriqueiramente, desde a fetichização do homem negro até essa abordagem que aconteceu contigo. Acho que isso é mais um sinal do problema estrutural no qual nossa sociedade é constituída e por isso concordo, em absoluto, tratar o racismo como uma realidade central das nossas vidas LGBTs.

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