Sobre cabelo, transição capilar e marcadores de negritude: um olhar Transmasculino Negro

                                                                           

A mais ou menos um ano eu resolvi deixar meu cabelo crescer novamente, eu já tive o cabelo na altura do glúteo, e dessa vez de maneira livre por eu querer e não por uma “imposição do gênero feminino”. Conforme ele foi crescendo eu fui cada vez mais percebendo como essa atitude perpassava de maneira bem específica na minha vida.

De cabelo raspado, as pessoas me olhavam, e dependendo do local, rolava racismo. Observei pessoas brancas se encolherem ou se sentirem ameaçadas. Quando o black ficou aparente, aí muitas reações somatizaram. Parecia que eu realmente era uma pessoa que estava ameaçando aquele local ou aquelas pessoas.

O cabelo cresceu e eu comecei a usar rabo de cavalo, ficou parecendo um coque, e mais uma vez a leitura mudou. Por eu estar de coquinho, algumas pessoas me olhavam com espanto, não sei ao certo, mas fiquei com a impressão que a leitura era que me viam como um homem negro gay, e que pra ser gay não pode ser negro. E aí o espanto.

Todas essas marcações e experiências que eu tive talvez fossem encaradas de maneira diferente se eu não fosse homem trans. E eu penso no quanto essa leitura e essa obrigatoriedade que as pessoas têm de acharem que temos que seguir uma norma pré-estabelecida, que geralmente é branca e cisgênera, esquecendo que essa maneira de se expressar não é a única.

Eu estive em processo de transição capilar e naquele momento, vivi e tive experiências diversas quanto a estar com pessoas, lugares e espaços diferentes e pude perceber quanto o racismo se manifesta de maneiras diferentes e na minha vivência enquanto homem negro trans, isso se dá de maneira muito subjetiva, específica e que se misturam muito com demais marcadores sociais de classe, raça e gênero. Como se os homens negros trans não pudessem ser femininos, gays, ter posturas não normativas e por aí vai. Porque o que esperam de nós enquanto homem negro é que a gente vá absorver toda a cultura racista de masculinidade negra que nos foi imposta de maneira errada, e quando homens negros trans manifestam posturas diferentes existe o espanto e até a dúvida se de fato é trans. Esses marcadores negativos da masculinidade negra são oriundos do processo de escravidão e quem impôs isso foi o sistema de branquitude.

O que quero dizer, é que a construção da minha masculinidade, está diretamente ligada ao fato de eu ser um homem negro e trans e ser um homem trans potencializa ainda mais marcadores de opressão racistas que são muito sutis e se misturam. Por isso, também, é tão difícil as pessoas entenderem que quando são racistas comigo são transfóbicas e quando são transfóbicas são racistas. Pelo simples fato de não ter como dissociar o ser negro, do ser trans, do ser homem negro e por final do ser homem negro trans.

Um exemplo que fica, é como a cultura negra é subjugada e negada, como se fosse algo ruim ou menor, a ponto de marcadores de raça serem colocados como algo ofensivo. Dizer que uma pessoa que descoloriu o cabelo, fica parecendo com um cantor de pagode pode causar um “sofrimento” enorme em pessoas brancas e isso não é por acaso. Muitos meninos negros descolorem o cabelo e são rotulados de pivete e bandido na rua por policiais e pela sociedade e nesse sentido é uma “ofensa muito grande” quando a gente apenas faz um comentário, sem maldade alguma. A maldade está na cabeça da pessoa branca que se ofende exatamente por se imaginar nesse lugar do pivete e do bandido. Usar como referência uma pessoa de camada social mais baixa, que representa isso, ou uma pessoa negra, não precisa ser encarado como algo depreciativo ou ofensivo. É apenas uma referência não hegemônica e as pessoas brancas (não apenas brancas, mas principalmente) precisam perceber que entender esse tipo de referência como algo ofensivo é racismo, elitismo.

Associar esse tipo de manifestação capilar com pagode, com negritude, sem levar em conta que muitos homens e meninos negros de periferia tingem o cabelo dessa maneira assim como alguns pagodeiros, sem considerar algo bom ou bonito, fica evidente o racismo. Eles entendem essa atitude, não como chacota ou como brincadeira, se sentem lindos. Usar uma referência negra pra elogiar alguém é errado? Entendo que não são apenas pessoas negras que descolorem o cabelo, mas são as pessoas negras que descolorem que são julgadas erradas, que são lidas como marginais. Que tanto medo e esse de ser comparada a uma pessoa com marcadores não hegemônicos e ter como marcador principal o cabelo?

Se fosse um Brad Pitt, ou um outro ator, cantor branco loiro, poderia?

Nesse sentido, mais uma vez fica nítido, como o racismo pras pessoas que não são atingidas, aparece de uma maneira e pra pessoas negras de outra, ou seja, alguém se beneficia enquanto outras são descriminadas, excluídas e lidas como marginais. E quando isso se dá na subjetividade que é a transmasculinidade negra, se torna algo quase que inimaginável. Pois, as marcações são outras, a vivência de homens negros trans são outras e nada disso é levado em conta quando se ofende ou quando um homem negro trans passa por situações de racismo. Nesse caso, a leitura social cisgênera que muitos homens negros trans possuem não ajuda, pelo contrário. E não tem como colocar esses tipos de violência apenas como racismo, pra mim é transfobia também. E por isso a linha tênue fica muito específica pra nós, mas pra outras pessoas que não tem esse tipo de experiências fica algo distante.

E entendo que em relação a outras pessoas trans pode existir leitura de privilégio, mas o contexto muitas das vezes é um forte marcador pra isso.

Quando apontamos a branquitude, estamos dizendo do sistema de poder branco e não a pessoa em específico, não é individual. As pessoas são ensinadas a serem racistas, e isso precisa ser entendido mais do que nunca pelas pessoas brancas, cis e trans. Só assim elas vão passar a reconhecer seus privilégios enquanto pessoas brancas e quem sabe, possam repensar suas atitudes e pensamentos.

Leonardo Peçanha
Leonardo Peçanha é Professor de Educação Física. Especialista em Gênero e Sexualidade, Mestre em Ciências da Atividade Física.
Homem Trans. Ativista Transfeminista Negro. Membro apoiador do Comitê Desportivo LGBT do Brasil.
Idealizador desse site.
Leonardo Peçanha

Sobre Leonardo Peçanha

Leonardo Peçanha é Professor de Educação Física. Especialista em Gênero e Sexualidade, Mestre em Ciências da Atividade Física. Homem Trans. Ativista Transfeminista Negro. Membro apoiador do Comitê Desportivo LGBT do Brasil. Idealizador desse site.

Um comentário sobre “Sobre cabelo, transição capilar e marcadores de negritude: um olhar Transmasculino Negro

  1. A luta do negro, seja qual for o gênero ou classe social, sempre será minimizada. A nossa força precisa ser triplicada!

    ” Quando a coisa tá preta, a coisa tá boa!”

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