Visibilidade Trans: pra quem?

O Dia da Visibilidade Trans é um dia para marcar que as pessoas travestis e trans devem ser resistentes, resilientes. É um dia de luta, assim como todos os outros do ano. Não dá pra comemorar a morte de travestis que são assassinadas com crueldade quase todos os dias. Enquanto ainda estivermos em primeiro lugar como país que mais assassina travestis e mulheres trans no mundo esse dia será de resistência. Tivemos avanços? Tivemos. Mas, continuamos muito, mas muito distantes de ter o básico. Ainda se luta por respeito ao nome e por qual o banheiro usar.

Pensando que visibilidade pode ser também entender o corpo T como legítimo e ressignificado que me questiono: que corpo T é realmente visível?

A construção de corpo modelo que temos como parâmetro hoje é branca, cisgênera, magra, sem deficiência, musculosa e possivelmente lida como a de uma pessoa heterossexual. O que foge a isso sofre com violência. Que pode ou não cruzar com mais de uma dessas particularidades de leitura corporal.

Dentre as travestis e mulheres trans mortas no Brasil, uma grande parcela são de negras e isso não é por acaso.

O corpo negro, e apenas por ser negro, já é desconstruído de toda essa lógica normativa de corporeidade. É evidente que uma pessoa T negra, mesmo que seja lida como cis pela sociedade, em relação a branca tem o corpo menos aceito, mais questionado e hostilizado. Porque é um corpo visto como ameaça.

É nesse sentido que muitos homens negros trans, passam a ser vistos como ameaça ou ameaçadores, nesse caso por exemplo, pela polícia. Realidade que homens negros cis já vivenciam em seu cotidiano. O mesmo pode acontecer com a travesti ou mulher negra trans, onde a que não é lida como negra ou que é branca pode, por exemplo, acessar o banheiro feminino com menos dificuldades, enquanto que a negra, pode ter alguma marca, que nesse caso geralmente pode ser uma marca de negritude, que fuja da norma corporal hegemônica e seja impedida de entrar no banheiro.

E isso faz com que o sentido mais comum de “passabilidade” se perca, pois esses fatores que o corpo negro carrega faz dele ser um corpo que não é “passável”, tanto em relação ao corpo cis quanto a ser indivíduo de uma maneira geral na sociedade, por todas essas dimensões de preconceitos de raça, classe e gênero que em muitas vezes se cruzam no caso de pessoa negras trans.

O corpo trans é um corpo que por muitas pessoas é repudiado, por ser transgressor e isso assusta. O corpo negro trans, faz duas marcantes conexões: a de raça e a transgressão corporal de gênero – isso sem colocar aqui demais subjetividades e especificidades corporal que se possa ter – fazendo com que culturalmente a travesti ou mulher trans negra seja vista como homem negro, como alguém que jamais poderia adequar seu corpo. O pensamento cultural e social das pessoas é achar que homem negro possui uma virilidade inquestionável, uma força braçal grande e que é um reprodutor nato. Tudo isso é racismo, oriundo do processo de escravidão. São também por conta dessas marcações culturais e sociais que a pessoa negra carrega como imposição que o imaginário de negritude trans é tão perverso, fazendo com que muitas travestis e mulheres trans negras sejam assassinadas com requintes de crueldade. Precisamos entender que não se vence racismo com transfobia e nem transfobia com racismo. Não se pode vencer opressão com opressão.

Por isso o empoderamento de uma pessoa T negra é importante e a visibilidade se dá de maneira diferente. Pela dificuldade de acesso e visibilidade que as pessoas negras (cis ou trans) têm na mídia e na sociedade, precisa ter mais visibilidade trans negra positiva. Como vem fazendo Lavern Cox, Janet Mock, Kayden Coleman, Shawn Stinson. Aqui no Brasil podemos citar como exemplos: Alessandra Ramos, Jaqueline Gomes de Jesus, Keila Simpson, Maria Clara Araújo, Marcelo Caetano, Patrick Lima, Lam Matos que são pessoas trans e travestis que ajudam e muito nessa visibilidade e na construção do empodermaneto trans negro.

Precisamos ver mais pessoas trans negras na mídia, mais corpos de pessoas trans gordas, para que as pessoas entendam que pessoas trans e que o corpo trans, é legitimo, com suas subjetividades e particularidades que todo o corpo possui. Todo o corpo é diferente um do outro, nenhum corpo é igual as pessoas não são iguais, as vivências e as maneiras de ver o mundo são diferentes. Os direitos e os acessos sim, deveriam ser iguais a todas as pessoas.

Precisamos também de mais amor para vencer essa guerra contra a morte, contra o genocídio do povo preto, contra genocídio de pessoas travestis e trans, contra a transfobia, racismo, gordofobia, lesbofobia, homofobia, classismo, etarismo, capacitismo. Porque uma pessoa trans pode sofrer outras formas de opressão: a transfobia para algumas pessoas é só uma delas.

E você, enxerga o amor numa pessoa trans e travesti? Numa pessoa travesti ou trans negra?

E o afeto, e o amor, cadê?

Leonardo Peçanha
Leonardo Peçanha é Professor de Educação Física. Especialista em Gênero e Sexualidade, Mestre em Ciências da Atividade Física.
Homem Trans. Ativista Transfeminista Negro. Membro apoiador do Comitê Desportivo LGBT do Brasil.
Idealizador desse site.
Leonardo Peçanha

Sobre Leonardo Peçanha

Leonardo Peçanha é Professor de Educação Física. Especialista em Gênero e Sexualidade, Mestre em Ciências da Atividade Física. Homem Trans. Ativista Transfeminista Negro. Membro apoiador do Comitê Desportivo LGBT do Brasil. Idealizador desse site.

3 comentários sobre “Visibilidade Trans: pra quem?

  1. Leo, é esta transgressão que nos humaniza!! É ela que pode inscrever o próprio querer por um mundo menos violento e pelo poder de autonomização e autonomeação dos sujeitos para os próprios sujeitos… Muito bom seu texto!! Que venham outros…

  2. Parabéns pelo belo, intenso e poderoso texto, amigo. Muito necessário no dia de hoje e para além deste. É isso, é preciso mais amor , mais empatia por parte das pessoas para que elas entendam que ” uma pessoa trans sofre diversos tipos de opressões, a transfobia é só uma delas”. Observação: não somos muitos e como nossa existência ainda é invisibilizada, pode parecer para pessoas cisgeneras que homens trans e pessoas transmasculinas não são assassinadas em.nosso país. Nós tambem somos, mas infelizmente até nossa morte nos é negada. Abraços irmão

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