Autorretrato: Leonardo Peçanha

Ter um espaço onde escrever o que vivencio e penso é muito bom. Também é desafiador, mas não hesitei em momento algum e segui na ideia de construir algo nesse sentido. Minha vivência que passa desde violência psicológica e física na infância [vividas e observadas], morte da mãe na adolescência; ser lido como mulher masculina lésbica; lesbofobia, racismo, sexismo; mais recente: transfobia institucional, transfobia, racismo me levaram a ir com mais força e levar a frente esse projeto. Não poderia deixar de fazer algo e, através das minhas palavras, passar informação, e tentar sensibilizar as pessoas para a reflexão.

No meio de minha vivência me peguei reconstruindo e ressignificando o meu corpo, dando à vida e ao corpo um outro significado, já que o que é normativo ou padrão não era mais o que me enchia os olhos [se é que um dia encheu].

Conforme fui vivendo, fui aprendendo que resistir sempre foi uma marca presente. Que ao ser lido como mulher negra, vivi situações que como homem negro passaram a ter outra dimensão; que enquanto era lido como lésbica, não imaginava vivenciar determinadas coisas que hoje vivo como homem trans e vice-versa. Vejo que problemas difíceis que achava que tinha antes, hoje são muito mais complexos. Percebi que de um jeito ou de outro sempre fomos “objetos de pesquisa” e que enquanto mulher negra lésbica masculina ou homem negro trans o “ser objeto”, de alguém ou de algo, sempre esteve presente seja na vivência ou na maneira de expressar o corpo. Entendi que foram as marcas históricas de um passado escravagista que oprimia os corpos e a vivência de meus ancestrais, que naturalizou o preconceito contra nossos corpos até hoje.

Percebi que ser homem significa ter privilégios, mas que enquanto homem negro o privilégio tem outro significado, passa a ser uma imposição, porque pode vir junto com: ser uma ameaça, sofrer ameaça de morte, de violência e de virilidade inquestionável.

Que viver uma heterossexualidade não-normativa, não-binária e não-compulsória, faz as pessoas duvidarem de toda a uma vivência apenas por ser diferente da maioria das relações heterossexuais.

Dialogando através de questões como citei que direcionarei meus textos. Tendo sempre em mente que as pessoas não são iguais, que a diferença é que é legal, que é bacana!

A igualdade deve ser de direitos e acesso. Onde a igualdade respeite a diferença e suas especificidades e a diferença de cada indivíduo englobe a todas as pessoas pela igualdade.

Leonardo Peçanha
Leonardo Peçanha é Professor de Educação Física. Especialista em Gênero e Sexualidade, Mestre em Ciências da Atividade Física.
Homem Trans. Ativista Transfeminista Negro. Membro apoiador do Comitê Desportivo LGBT do Brasil.
Idealizador desse site.
Leonardo Peçanha

Sobre Leonardo Peçanha

Leonardo Peçanha é Professor de Educação Física. Especialista em Gênero e Sexualidade, Mestre em Ciências da Atividade Física. Homem Trans. Ativista Transfeminista Negro. Membro apoiador do Comitê Desportivo LGBT do Brasil. Idealizador desse site.

4 comentários sobre “Autorretrato: Leonardo Peçanha

  1. Parabéns Leo, seu lindo! Força na luta, luta que muda de cara, que se readéqua a cada momento de suas diferentes vivências. Opressão que vem de tudo que é lado, mesmo de lados em teoria “amigos”… Não posso falar da negritude, de vivenciar as diferentes facetas do racismo, por estar do lado do privilegiado… Porém, me entrego à luta, abraço com muito amor e orgulho a causa! A desconstrução do racismo é exercício perpétuo… Fico muito feliz de viver atualmente no Matongué, o bairro africano de Bruxelas, e aprender todo dia um pouco sobre a diversidade dessa gente tão linda e colorida! São tantas lições de humanidade quanto as infindáveis matizes púrpuras da pele! Um beijo grande de sua amiga e admiradora!

  2. Leo,
    saúdo imensamente as veredas que esse espaço inaugura. Saúdo a polifonia dessas vozes que não mais desejam um silêncio que significa emudecimento. Saúdo essa resistência firme e sem concessões, que se faz por meio do diálogo, da desobediência às normas e do amor (o amor… essa célula revolucionária!).
    Sigo lendo, aprendendo e saudando esse espaço. Abraços a todos os envolvidos! 🙂

  3. Caro Leo,

    Passando para conhecer o blog, agradecendo pelo convite e, desejando, COMO SEMPRE, toda Força e Sabedoria nessa bonita luta.

    Parabéns pelo texto: Intenso… Verdadeiro… cheio de Vida…. Respeito… Igualdade…

    Um Forte abraço!

    Marcelo Sena

  4. Leo, é difícil mano. A vida prega cada uma com a gente e nos leva a lugares diferentes e tão complexos. Mas vc enfrentou e torço que anime outras pessoas a serem o que bem entenderem. Um abraço. Álvaro

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