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Como matar lentamente a si mesmo e os outros e continuar vivendo? Alan Augusto Ribeiro

Como matar lentamente a si mesmo e os outros e continuar vivendo?

Paradoxal, contraditória, direcionada e interessada. Depois de ler o livro Solidão)(1), de J. Cacioppo e W. Patrick, fiquei me perguntando por que estas quatro palavras são usadas repetidamente (e, de certo modo, enigmaticamente!) neste livro para discutir a relação que eles definem como “complexa e obscura” entre desejos, emoções e afetos? Procurei construir uma resposta que pudesse me ajudar a escrever algo sobre o tema “masculinidades negras, emoções e política dos afetos”, escolhido para a produção dos textos deste mês aqui no blog. Fiz o seguinte: separei o “paradoxo e a contradição” do “interesse e o direcionamento“. As duas primeiras palavras me fizeram pensar em como as exigências pelo domínio sobre si eram frágeis, de modo que nossa vontade de poder controlar os modos pelos quais sentimos o que sentimos, manipular o que, como e quem desejamos e direcionar os nossos afetos era limitada. Estas duas primeiras palavras estariam, deste modo, fora de nosso completo domínio individual, estariam além de nossas possibilidades de controle sócio-político e simbólico sobre nós mesmos. Já as duas outras palavras me fizeram pensar que nossos desejos, emoções e afetos não estariam fora do alcance de nossa consciência. Elas se situariam dentro de relações vividas, fazendo com que acreditemos ser possível conduzir e decifrar intencionalmente nossos desejos, emoções e afetos como se fossem forças manipuláveis pela vontade individual. De acordo com as duas últimas palavras, estipulei que poderia pensar em um lugar autônomo do sujeito na História, fazendo-o reaparecer como um ser livre e atuante sobre os próprios sentimentos. Porém, notei que esta leitura dicotômica é uma armadilha: paradoxo, contradição, direcionamento e interesse devem ser vistos mais como elementos correlacionados do que como duplas de opostos, como constituintes de uma totalidade complexa que não nos comprime e não foge de nós, não se submete à nós, não está sob nosso controle e não regula nossas maneiras de sentir, não nos manda e não nos obedece.

Notei também outro problema: estou começando a ver em alguns destes Nós vantagens e desvantagens. “Nós negros” ou “nós homens negros” são retóricas que ajudam em algumas coisas, mas nos iludem em outras, explicam certos processos, mas escondem outros. Tenho 7 irmãos homens negros pobres e vários amigos homens negros pobres, mas sou o único homem negro pobre do meu bairro que teve acesso à um conjunto de discursos e narrativas analíticas que permitem com que eu manipule, diante de uma elite formalmente intelectualizada e informada politicamente, este Nós, possibilitando ilações como “nós somos”, “nós queremos”, “nós sentimos”, “nós desejamos”.

Neste ponto retorno ao enigma das quatro palavras. Sei que muitos de Nós vivem e sentem esta relação complexa e obscura, mesmo que sonhem por um “amor com a nossa cor”! Alguns de nós anseiam por um “amor afrocentrado” que possa reconstituir nossa “família negra”! Isto que alguns de nós acredita estar buscando já existe, mesmo que fora de moldes ideológicos trazidos pelo ativismo político! Muitos vínculos afetivo-sexuais “com a nossa cor” tem se sustentado entre muitos de Nós, há muito tempo! Sou de uma família cheia de relacionamentos entre homens negros e mulheres negras que estão juntos há mais de 30 anos! No texto anterior escrito para este blog, argumentei que o nosso problema não são relações que não existem, mas a qualidade das relações que existem! Sugeri que temos contrabandeado discursivamente experiências individuais como se fossem coletivas e interpretado experiências coletivas como se fossem individuais! É por esta razão que o “Nós” deve saber de que “Nós” estamos falando. Precisamos desfazer um “nó” malfeito neste Nós! Não é todo mundo que acredita que processos psicossociais, conflitos simbólicos e políticas relacionais presentes em sistemas de opressão raciais, sexuais, de gênero e de classe incidem nesta relação entre desejos, emoções e afetos e fazem com que muitos de Nós, homens negros, não consigam lidar com valores como ternura, docilidade e carinho, dificultando renúncias e resignações diante de quem amamos, vendo no espelho este amor com a nossa cor! A maioria de nós, homens negros está dando a mínima para qualquer discussão sobre emoções, afetos e masculinidades negras. Será mesmo? Sei que bell hooks desconfia disso!

Homens negros são vistos como incapazes para articular totalmente e reconhecer a dor das suas vidas. Eles não têm um discurso público nem audiência na sociedade racista que lhes permitam dar voz a sua dor. Infelizmente, os homens negros muitas vezes evocam uma retórica racista que identifica o homem negro como um animal, falando de si mesmos como ‘espécies em vias de extinção’, como ‘primitivos’, em sua tentativa de obter o reconhecimento do seu sofrimento.(…) Quando os jovens negros adquirem uma poderosa voz e presença pública via produção cultural, como já aconteceu com a explosão da música rap, isso não significa que tenham um veículo que lhes permita articular essa dor (hooks, 1992; 35)(2).

       

Esta última afirmação de bell hooks poderia ser invertida sem perder o potencial crítico: foi a música rap que, contemporaneamente, se apresentou como um dos poucos instrumentos públicos por meio do qual esta dor vivida por muitos homens negros urbanos está sendo apresentada, mesmo que esta exposição não traga detalhamentos acerca de certas complexidades psicológica do Eu. Ao nos trazer descrições de contradições vivenciadas diante de realidades sociais excludentes vividas por homens negros, o rap aponta para um caminho por meio do qual podemos discutir tais dores e sofrimentos, mesmo que não o faça com detalhes necessários. De fato, ainda não explicitamos no discurso público que o privilégio masculino nos isenta de um conjunto de preocupações e problemas relacionados aos afetos e emoções vividos por pessoas com quem temos vínculos diretos, como irmães e irmãos, mães e pais, companheiras e companheiros de afeto e de desejo, negros e brancos, mesmo em situação de pobreza e exclusão. Embora isto não nos garanta muito coisa, mesmo que “Nós” homens negros não estejamos preocupados com muitas fragilidades e sofrimentos sociais vividos por outros grupos de pessoas, precisamos falar de sofrimentos e fragilidades, pois isso se contrapõem aos discursos racistas e sexistas! Não existe imunidade emocional quando nós e outras pessoas dizem que somos fortes e resistentes. Ser o “negão”, o “cara grande”, o “forte”, é uma armadilha! Sabemos que existem não-ditos escondidos dentro da gente que nos impedem de falar sobre o que está nos corroendo por dentro; algumas vezes, a gente subscreve estes tropos do “forte”, do “negão”, do “quente”, do “macho”!

Neste mesmo texto, bell hooks assinala que as dificuldades de falar sobre esta dor diz respeito ao modo como brutalização, virilidade e truculência aparecem como ambivalências complexas nas emocionalidades vivenciadas por muitos homens negros. Minha mãe, corrigindo o “filho mal-criado”, espancava-me com um grande pedaço de madeira porque eu “aguentava umas pauladas”. Eu era “grandão”! Ela dizia que “queria o meu bem”, apesar de tudo. Tive uma namorada que queria que eu fosse carinhoso e afetuoso, atenciosos e dedicado, e viril na hora do sexo, incansável. Eu também queria isto dela, mas achava que uma coisa não podia estar ao lado da outra. Sentia-me respeitado pelos caras da minha rua porque era “grandão” e “bom de porrada”, mesmo que fosse isolado de alguns “rolês” porque estudava demais. Minha professora apreciava a dedicação aos estudos porque era difícil que um cara “como eu” fosse dedicado aos estudos!

 Pessoas brutalizam você de um jeito tão sub-reptício e eficiente, durante tanto tempo, que isto pode te levar a pensar que você precisa ser um bruto truculento para ser uma pessoa respeitada. Você começa a pensar que o temor que causa nas pessoas é respeito; isto te enche de “auto-estima”, até o momento em que você percebe que está colocando para fora ressentimentos, afastando, amedrontando e confundindo as pessoas que estão perto de você. Entenda que isto foi colocado dentro de nós, não nasceu conosco! A virilidade pode até nos defender daquilo que julgamos como abusos e desrespeitos, pode até fazer com que a gente pense que está se preservando, fazendo com que nos deleitemos sobre nossa suposta capacidade de provocar prazer sexual, mas ela pode te isolar, afastar aqueles que querem fortalecer você e te apoiar como um sujeito que tem mentalidades e corporalidades, não apenas cabeça e corpo. Se você é brutalizado, visto como um sujeito truculento e viril durante muito tempo, começará a acreditar que não precisa de outras “forças” para ser um sujeito. Eu não quero ser um “espírito opaco”, um “coração ferido” que confunde “recomeçar” com “desistir”! (“Vida loka II, Racionais”)

Devemos perceber que, no momento em que nossa subjetividade é coisificada, nossas complexidades ontológicas são reduzidas ao simplório estereotipado da subordinação política. Neste movimento, estas complexidades passam a ser explicadas somente pela exlcusão, pela marginalização, pela violência, pela virulência: homens negros passam a ser vistos por dentro da hierarquia e da desigualdade, nunca pode dentro dos modos pelos quais estes corpos são masculinidades e racializadas em suas próprias experiências. Mesmo que sujeitos, esta reflexão nos registra como meros predicados! Neste debate sobre desejos, emoções e afetos, um modo de sair deste círculo de reificação no qual as masculinidades negras tem sidos colocadas na história do racismo e do sexismo brasileiro pode estar na estratégias narrativas tecidas pelos próprios sujeitos que vivenciam estas masculinidades racializadas, podendo ser vistas sob a fragmentação e a contradição:

Devemos fazer a nossa História, buscando nós mesmos, jogando [com o] nosso inconsciente, [com] nossas frustações, [com] nossos complexos, estudando-os, não os enganando. Só assim poderemos nos entender e fazer-nos aceitar como somos, antes de mais nada pretos, brasileiros, sem sermos confundidos com os americanos ou africanos, pois nossa História é outra como é outra nossa problemática (Nascimento apud Ratts, 2007; 97)(3).
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Precisamos tensionar uma lógica binária de pensamento que divide o mundo entre maldade e bondade, positivo e negativo, inferior e superior. Se privilégio é não se preocupar e não se responsabilizar com um conjunto de coisas, de modo que este conjunto de coisas passa a não existir para quem vivencia privilégios, então podemos enfrentar esta fronteira: precisamos descobrir o que os privilégios supostamente colocam para fora do discurso, para fora das narrativas conhecidas e dos vocabulários analíticos e políticos que estão sendo (re)produzidos até este momento de nossa história político-intelectual. Que conjunto de práticas existenciais, vivências políticas e processos simbólicos os diferentes homens negros podem descrever com detalhes e acuidade porque são construídos socialmente como diferentes homens e negros? Como descrever práticas, vivências e processos que estão fora das preocupações destes homens negros? Como conciliar preocupações e vivências com uma “política da responsabilidade com outros sujeitos”? Eu posso ser responsável pelas pessoas com quem me relaciono afetivamente não porque sou um corpo masculinizado e racializado, mas porque esta responsabilidade me ajuda a enfrentar fastasmas raciais que fazem surgir medos masculinos (e vice-versa) que surgem diante do espelho das desigualdades. Somente podemos sentir a precarização de nossas vidas como homens e negros se acreditarmos que existe apenas a masculinidade patriarcal, heterossexual e branca do mundo perfeito! Masculinidades racializadas devem começar a ser vistas como experiências que articulam em torno dos sujeitos que as vivenciam um conjunto de fragilidades afetivas e de sofrimentos emocionais, uma série de contradições psicológicas e de paradoxos políticos. Masculinidades racializadas não estão acopladas nos corpos de homens negros, pois elas não nascem nestes corpos, são colocadas forçosamente nestes corpos. Será que precisamos acessar a masculinidade patriarcal e branca para para sermos sujeitos de uma história, sujeitos que respeitam outros sujeitos? Não, não precisamos desta masculinidade para sermos sujeitos no mundo, para sermos sujeitos para nós mesmos.

Para entendermos como homens negros de diferentes orientações sexuais, de diferentes classe sociais, de distintas orientações políticas, são racializados e masculinizados no contexto brasileiro, precisamos decifrar o que temos chamado de masculinidades negras fora de uma leitura dicotômica entre mente e corpo que retira sofrimentos, sensibilidades, emocionalidades, interesses, intencionalidades e direcionamentos utilitaristas, contradições e paradoxos das vivências destes diferentes homens negros, deixando de conceber o que é geral no particular, evitando particularizar o que é geral.

        Alguns dias atrás estava me perguntando: se na sociedade brasileira homens negros jovens estão morrendo antes mesmo de completar a maturidade, porque esta sociedade precisa prepará-los para lidar com as complexidades da vida social? Se ele pode morrer antes dos 30 anos (e/ou matar para não morrrer!), por que precisa ser educado, escolarizado, sensibilizado, integrado, familiarizado, socializado e amado para uma vida longa? De todo modo, se você chegou até aqui (se é homem negro, está vivo e tem mais de 30 anos) e está lendo este texto confessional, deve estar se perguntando o porquê do título que escolhi. Se você se sentiu provocado por tudo o que leu, então deve ter compreendido minhas provocações! Minha inspiração é o livro sem tradução para o português chamado How to slowly kill yourself and others in America, do escritor negro gay Kiese Laymon (2013; 43), que consiste em um conjunto de textos escritos para mulheres e homens negros, vivos e mortos, familiares e amigos que estiveram e estão na vida de Laymon. O objetivo do livro de Laymon “(…) não é escrever sobre liberdade, mas falar sobre sobrevivência, benefícios e pesos de ser negro”. Este livro tem me inspirado a escrever um livro próprio que consiste em um conjunto de cartas para homens e mulheres negras de minha vida. Neste livro, escreverei para os homens e mulheres negras que estão vivos, considerando-os como se estivessem mortos, advertindo-os sobre como poderíamos nos manter “vivos” diante da violência sexista e racista. Para os segundos, os que estão vivos, tentarei explicar como poderíamos fazer de nossas vidas uma passagem melhor, mesmo diante destas violências que nos tornam “mortos-vivos”! Espero que a mensagem deste livro seja cruel, mórbida, mas esperançosa, auto-defensiva e minimamente honesta, pois quero me ressuscitar como um homem negro feito na contradição e no conflito e vivo. Quero advertir outras pessoas sobre os perigos e delícias de uma vida repleta de rasuras emocionais, riscos afetivos e desejos ambivalentes! Quero terminar com uma mensagem sombria que recebi tempos atrás de uma mãe-de-santo: “meu filho, teu coração tá na cabeça, tua cabeça tá no teu corpo e o teu corpo tá no teu coração!”

(1) CACIOPPO, John; PATRICK, William. Solidão: a natureza humana e a necessidade de vínculo social. São Paulo, Editora Record, 2010.

(2) HOOKS, Bell. Black Looks: Race and Representation. Boston: South End Press, 1992.

(3) RATTS, Alex. Eu Sou Atlântica: Sobre a Trajetoria de Vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial e Instituto Kwanza, 2007.

Visibilidade Trans: pra quem?

O Dia da Visibilidade Trans é um dia para marcar que as pessoas travestis e trans devem ser resistentes, resilientes. É um dia de luta, assim como todos os outros do ano. Não dá pra comemorar a morte de travestis que são assassinadas com crueldade quase todos os dias. Enquanto ainda estivermos em primeiro lugar como país que mais assassina travestis e mulheres trans no mundo esse dia será de resistência. Tivemos avanços? Tivemos. Mas, continuamos muito, mas muito distantes de ter o básico. Ainda se luta por respeito ao nome e por qual o banheiro usar.

Pensando que visibilidade pode ser também entender o corpo T como legítimo e ressignificado que me questiono: que corpo T é realmente visível?

A construção de corpo modelo que temos como parâmetro hoje é branca, cisgênera, magra, sem deficiência, musculosa e possivelmente lida como a de uma pessoa heterossexual. O que foge a isso sofre com violência. Que pode ou não cruzar com mais de uma dessas particularidades de leitura corporal.

Dentre as travestis e mulheres trans mortas no Brasil, uma grande parcela são de negras e isso não é por acaso.

O corpo negro, e apenas por ser negro, já é desconstruído de toda essa lógica normativa de corporeidade. É evidente que uma pessoa T negra, mesmo que seja lida como cis pela sociedade, em relação a branca tem o corpo menos aceito, mais questionado e hostilizado. Porque é um corpo visto como ameaça.

É nesse sentido que muitos homens negros trans, passam a ser vistos como ameaça ou ameaçadores, nesse caso por exemplo, pela polícia. Realidade que homens negros cis já vivenciam em seu cotidiano. O mesmo pode acontecer com a travesti ou mulher negra trans, onde a que não é lida como negra ou que é branca pode, por exemplo, acessar o banheiro feminino com menos dificuldades, enquanto que a negra, pode ter alguma marca, que nesse caso geralmente pode ser uma marca de negritude, que fuja da norma corporal hegemônica e seja impedida de entrar no banheiro.

E isso faz com que o sentido mais comum de “passabilidade” se perca, pois esses fatores que o corpo negro carrega faz dele ser um corpo que não é “passável”, tanto em relação ao corpo cis quanto a ser indivíduo de uma maneira geral na sociedade, por todas essas dimensões de preconceitos de raça, classe e gênero que em muitas vezes se cruzam no caso de pessoa negras trans.

O corpo trans é um corpo que por muitas pessoas é repudiado, por ser transgressor e isso assusta. O corpo negro trans, faz duas marcantes conexões: a de raça e a transgressão corporal de gênero – isso sem colocar aqui demais subjetividades e especificidades corporal que se possa ter – fazendo com que culturalmente a travesti ou mulher trans negra seja vista como homem negro, como alguém que jamais poderia adequar seu corpo. O pensamento cultural e social das pessoas é achar que homem negro possui uma virilidade inquestionável, uma força braçal grande e que é um reprodutor nato. Tudo isso é racismo, oriundo do processo de escravidão. São também por conta dessas marcações culturais e sociais que a pessoa negra carrega como imposição que o imaginário de negritude trans é tão perverso, fazendo com que muitas travestis e mulheres trans negras sejam assassinadas com requintes de crueldade. Precisamos entender que não se vence racismo com transfobia e nem transfobia com racismo. Não se pode vencer opressão com opressão.

Por isso o empoderamento de uma pessoa T negra é importante e a visibilidade se dá de maneira diferente. Pela dificuldade de acesso e visibilidade que as pessoas negras (cis ou trans) têm na mídia e na sociedade, precisa ter mais visibilidade trans negra positiva. Como vem fazendo Lavern Cox, Janet Mock, Kayden Coleman, Shawn Stinson. Aqui no Brasil podemos citar como exemplos: Alessandra Ramos, Jaqueline Gomes de Jesus, Keila Simpson, Maria Clara Araújo, Marcelo Caetano, Patrick Lima, Lam Matos que são pessoas trans e travestis que ajudam e muito nessa visibilidade e na construção do empodermaneto trans negro.

Precisamos ver mais pessoas trans negras na mídia, mais corpos de pessoas trans gordas, para que as pessoas entendam que pessoas trans e que o corpo trans, é legitimo, com suas subjetividades e particularidades que todo o corpo possui. Todo o corpo é diferente um do outro, nenhum corpo é igual as pessoas não são iguais, as vivências e as maneiras de ver o mundo são diferentes. Os direitos e os acessos sim, deveriam ser iguais a todas as pessoas.

Precisamos também de mais amor para vencer essa guerra contra a morte, contra o genocídio do povo preto, contra genocídio de pessoas travestis e trans, contra a transfobia, racismo, gordofobia, lesbofobia, homofobia, classismo, etarismo, capacitismo. Porque uma pessoa trans pode sofrer outras formas de opressão: a transfobia para algumas pessoas é só uma delas.

E você, enxerga o amor numa pessoa trans e travesti? Numa pessoa travesti ou trans negra?

E o afeto, e o amor, cadê?

Modos de ser homem negro: Marcus Vinícius

Construí este texto há exatamente vinte oito dias atrás, mais precisamente no dia vinte de novembro Dia da Consciência Negra , dia que se celebra a força guerreira de Zumbi e toda essa gente que fez, faz e traz esse país inteiro no braço há tantos anos. De lá para cá venho revisitando a história deste país através da cultura negra: na música , na dança , no cinema e na TV.

Percebo que muito fizemos e pouco somos reconhecidos nesta grande babel e ser NEGRO é um exercício diário.

Hoje ao acordar a primeira coisa que fiz foi ligar a TV para acompanhar como seria a programação neste Dia da Consciência Negra (mesmo sabendo que poderia me decepcionar, mas fiz) e oque vi foram só matérias que de nada se aproximavam deste dia tão importante, falaram da vitória do Corinthians, das manias que você tem na vida, da árvore de Natal da Lagoa que caiu, do cacete a quatro e lá bem lá camuflado, tímido e romantizado foi citado o papel do negro nos dias de hoje. Tudo isso sobre o olhar de uma plateia e de convidados com sua totalidade branca a discutir oque se quer eles imaginam ser negro por essas terras e em qualquer outra parte do planeta.

Em quanto na África neste exato momento um grupo armado faz cerca de 170 reféns em um hotel de Bamako, capital do Mali no oeste da África deixando feridos, no Brasil milhares de atividades acontecendo lembrado Zumbi dos Palmares, a cultura negra, lutando por respeito é tratado como um tema secundário e rechaçado de lirismo. Fico a pensar e posto em minha rede social esta indagação: – É tão bom ter essa imprensa seletiva que nos dá as costas e atrofia a informação negando a visibilidade do se ver representado e reconhecido por artistas e personalidades negras que tanto contribuíram e contribuem para o muito que temos hoje, né?!

Logo, logo recebo algumas curtidas a favor e alguns questionamentos como:

– Calma Marquinhos… não há porque se irritar com isso

– Deixa a TV para lá, pois hoje é feriado e há boas opções de lazer nas ruas para nos divertir…

Como não sou de deixar ninguém sem resposta quando lançam perolas irracionais, respondo no ato e sem pestanejar : – Não há como ter calma quando milhares de negros morrem diariamente por motivos torpes, são vitimas de racismo e ficam no umbral da clandestinidade da vida. E quando falo da TV não dar visibilidade ao negro em suas conquistas e mazelas diárias é porque a TV é o veículo que muitos tem acesso ainda e se guiam (infelizmente), e se este veiculo (que é uma concessão publica) não contribui para mudar toda esse encarceramento que vivemos ficará muito difícil avançarmos.

Por fim chego a conclusão: o racismo que era latente, vem se mostrando menos velado e o Brasil é um país de muitas formas de racismo e que precisa com urgência discutir, debater, colocar na roda essas várias formas de racismo. Não só no dia de hoje, não só através de uma hasthag momentânea e sim na TV, nas escolas, nas ruas, no mercado de trabalho e em todo o lugar, pois como diz a canção: “– Moço não se esqueça que o negro também construiu as riquezas do nosso Brasil.(1)


(1) Samba Enredo 1988 – G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira (RJ). 100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão.

Modos de ser homem negro: Teófilo Reis

Nós, homens negros, precisamos conversar. E o assunto da conversa deve ser nós mesmos. Sim, precisamos conversar sobre as diferentes masculinidades e como o racismo impacta nossas vivências. Precisamos compreender que mesmo sendo tão diversos, temos algo em comum: somos homens negros.

bell hooks inicia seu texto Alisando o nosso cabelo reconstruindo um momento rotineiro de sua infância: as manhãs de sábado, quando as mulheres se reuniam para alisar seus cabelos. O alisamento, que simbolizava também o abandono da infância para adentrar o mundo das mulheres, era também um momento de cuidado umas com as outras e consigo mesmas. Em outro texto (Vivendo de amor), hooks fala da importância da vida emocional. É sobre esta importância que quero pensar um pouco.

Vivemos numa sociedade profundamente racista. O racismo à brasileira deteriora tudo o que toca, e quase nada escapa de seu alcance. Até mesmo a vida é relativizada pelo racismo: uma morte é uma tragédia, mas a execução de cinco jovens negros é tida como um mero despreparo policial, ou no máximo como um problema que não tira o sono de quase ninguém. Parece-me muito nítida a mensagem que nós homens negros recebemos da sociedade: nós somos descartáveis.

Mesmo descartáveis, aqui estamos. Isto significa que a carga do racismo ficou para trás? De forma alguma! Nossos corpos são animalizados, hipersexualizados e valorizados apenas para os trabalhos mais precários. Nossos traços são lidos como sinais de que somos potencialmente perigosos, violentos, inimigos da ordem e da civilização.

Nesse salve-se quem puder, cada um sobrevive como pode. Mas o jogo é cruel: não existe maneira de vencê-lo. Enquadrar-se no padrão admissível (ou seria melhor dizer tolerável?) de homem-negro-cis-hétero signifca resignar-se a um lugar social pré-estabelecido e sufocar as potencialidades da vida emocional, já que a masculinidade padrão assim o exige, e a negritude é lida como reforçadora do aspecto da força e da brutalidade. Desviar do padrão é submeter-se a mais uma série de obstáculos: homem-negro-trans tem, de partida, o não-reconhecimento de sua identidade por grande parte da sociedade; a homo/bi/a-sexualidade também leva a obstáculos adicionais. Em todos os casos, a vida emocional fica sufocada, quase impossibilitada de se desenvolver.

O cuidado de si e dos seus, como descrito por bell hooks, é uma forma de injetar novo fôlego na vida emocional. Para que tal feito se efetive, é necessário haver o reconhecimento de si mesmo como merecedor de cuidados, e também é preciso identificar aqueles que serão reconhecidos como os “seus”. Assim é fundamental olharmos uns para os outros de forma fraterna. Nós já somos vistos como um grupo, como uma fraternidade, pela sociedade que nos extermina. Precisamos resignificar essa fraternidade negra para que possamos descontruir um processo histórico que nos faz ser vistos como não merecedores de respeito ou nem dignos de afetos positivos.

Nós, homens negros, precisamos conversar. Conversar entre nós, e também com nossas companheiras mulheres negras, que já se articulam para pensar o cruzamento das questões de raça, gênero e sexualidade. Nós homens negros precisamos ouvir nossas companheiras, precisamos aprender. Nós precisamos resistir, sobreviver e ir além: precisamos viver.

Modos de ser homem negro: Patrick Lima

Um grito de socorro

Uma sensação estranha tem me rondado ultimamente. Uma espécie de obrigação de celebração diária da vida, afinal o Estado genocida ainda não me encontrou diretamente, embora atinja e afronte toda a comunidade negra diariamente. Como celebrar uma vida negra em meio a tantas tragédias?

Vivenciar a masculinidade negra é, de fato, um desafio e tanto. Não nos é permitido representação em espaços de poder. Encontramos nossos semelhantes em páginas policiais e nos necrotérios. Somos o povo considerado perigoso, comparados ao instinto animal que exalando virilidade (estupradores em potencial?) desde o tempo da escravidão precisa ser policiado. A licença para matar foi declarada à carne mais barata do mercado, afinal, como declarou o filósofo negro Frantz Fanon(1) (1958), o homem negro no imaginário ocidental, não é um homem, antes ele é um negro.

Cada expressão negra que sai de suas casas, por si só, há no mínimo 500 anos, pratica resistência. A grande dúvida é se voltaremos a salvo. Caso contrário, fica a inquietação se a mídia lançaria uma nota como “Efeito colateral da guerra ao tráfico”. Arrisco dizer que o genocídio negro no Brasil tem ceifado vidas tanto quanto países em guerra. O peito sangra, mas jamais calará nossas vozes.

Mas retornando o questionamento inicial: “como celebrar uma vida negra em meio a tantas tragédias?” – Nunca há momento para tal feito. Vivemos em luto de prazo indefinido a cada corpo preto que cai ao chão. Hoje, minha forma de viver a masculinidade negra, é resistir e esperar que eu e meus irmãos de cor não sejamos mais alvos ou desculpas do Estado e da sociedade racista.

Hoje, eu rezo por Wilton Esteves Domingos Júnior, Roberto de Souza Penha, Cleiton Corrêa de Souza, Wesley Castro e Carlos Eduardo da Silva Souza e tantos outros que foram privados de resistir. Resiliência e Ubuntu para todos nós.


(1) Frantz Fanon (1925-1961): Psiquiatra, filósofo e ensaísta francês da Martinica, de ascendência francesa e africana. Fortemente envolvido na luta pela independência da Argélia, foi também um influente pensador do século XX sobre os temas da descolonização e da psicopatologia da colonização.

Modos de ser homem negro: Alan Augusto Ribeiro

Comecei a ler textos (impressos ou digitais) sobre desigualdade raciais, desigualdades de gênero, desigualdades de classe e outras tantas desigualdades sociais e políticas quando precisei! Estava no quarto semestre da graduação em Ciências Sociais e precisava de dinheiro para continuar o curso. Entrei em um projeto de extensão e consegui uma bolsa de estudos. Neste projeto precisei ler textos sobre raça e racismo, gênero e sexismo, classe e marxismo (naquele momento, estes dois últimos me foram apresentados como conceitualmente equivalentes. Outro dia posso falar sobre isso!).  Atualmente, leio estes textos não porque são necessários, mas porque são fundamentais!! Usando estes textos em minhas pesquisas acadêmicas, uma coisa passou a me instigar nestes últimos anos (nos quais a internet ganhou uma força de divulgação de ideias que, em 2003, não possuía) em que comecei a estudar masculinidades e homens negros: como homens negros “aparecem” nestes textos, seja no mundo intelectualizado das Ciências Humanas, seja no mundo intelectualizado da internet? Juntando tudo o que é dito (e não-dito) sobre homens negros, como “somos” nestes textos?

Sem cerimônias, tenho observado as seguintes ilações sobre homens negros nestes textos: homens negros abandonam suas companheiras mulheres negras, seus filhos, suas mães, seus irmãos (não abandonam o pais, pois este os abandonou antes, certo?). Homens negros morrem, são assassinados, matam, roubam, agridem, são agredidos! Homens negros, quando casam, casam com mulheres brancas, mas sempre procuram ter um vínculo com mulheres negras, tratando-as como amantes. Homens negros abandonam seus vínculos sociais, nunca são abandonados nestes vínculos!! Homens negros, quando ocupam posições de poder, valem-se de abusos de autoridade, expressam frustações raciais sob distúrbios psicológicos em suas relações e se ajustam aos desmandos de brancos poderosos para manter tais posições, mesmo que se encontrem isolados nestas mesmas relações. Homens negros usam o “privilégio patriarcal” para ter várias parceiras, porque não conseguem estabelecer vínculos afetivo-sexuais estáveis e duradouros. Homens negros acreditam que possuem algum poder em decorrência deste “privilégio patriarcal”, mas não mandam em nada, em porra nenhuma!! Homens negros, quando participam dos vínculos sociais com seus filhos ou filhas, parceiros ou parceiros, são apresentados como sujeitos que vivem estes vínculos parcialmente, descontinuamente e insuficientemente.

É isso: homens negros são apresentados retoricamente como desvinculados sociais! Como retóricas, estas ilações estão fora do discurso afirmativo porque o problema não é a ausência de vínculo, mas os modos sociais como são constituídos, as maneiras intelectuais sob as quais são interpretadas. Esta imagem de desvinculado é uma imputação acrítica e faz com que homens negros sejam um “não-lugar”, um “fora do discurso”. Esta imagem de desvinculado resulta de metalepsia (isto é, a consequência é apresentada como causa e a causa como consequência) e, muitas vezes, envolve um raciocínio que destaca a todo pela parte, transforma processos coletivos em escolhas individuais. Homens negros são vistos somente sob a chave das escolhas individuais, dificilmente sob a chave dos processos coletivos. São apresentados como sujeitos integrais racializados e generificados que sabem muito bem o que estão fazendo. Eu não escolhi ser esse monstro retoricamente contrabandeado pelo discurso afirmativo. Eu não sou um desvinculado social! Meus problemas estão dentro dos vínculos sociais e não fora deles. Meus problemas estão nos modos de produção sócio-política das masculinidades. São estes modos de produção das masculinidades que precisamos discutir de modo exaustivo se queremos entender como homens negros se transformam, se tornam e se percebem como homens negros!

Autorretrato: Leonardo Peçanha

Ter um espaço onde escrever o que vivencio e penso é muito bom. Também é desafiador, mas não hesitei em momento algum e segui na ideia de construir algo nesse sentido. Minha vivência que passa desde violência psicológica e física na infância [vividas e observadas], morte da mãe na adolescência; ser lido como mulher masculina lésbica; lesbofobia, racismo, sexismo; mais recente: transfobia institucional, transfobia, racismo me levaram a ir com mais força e levar a frente esse projeto. Não poderia deixar de fazer algo e, através das minhas palavras, passar informação, e tentar sensibilizar as pessoas para a reflexão.

No meio de minha vivência me peguei reconstruindo e ressignificando o meu corpo, dando à vida e ao corpo um outro significado, já que o que é normativo ou padrão não era mais o que me enchia os olhos [se é que um dia encheu].

Conforme fui vivendo, fui aprendendo que resistir sempre foi uma marca presente. Que ao ser lido como mulher negra, vivi situações que como homem negro passaram a ter outra dimensão; que enquanto era lido como lésbica, não imaginava vivenciar determinadas coisas que hoje vivo como homem trans e vice-versa. Vejo que problemas difíceis que achava que tinha antes, hoje são muito mais complexos. Percebi que de um jeito ou de outro sempre fomos “objetos de pesquisa” e que enquanto mulher negra lésbica masculina ou homem negro trans o “ser objeto”, de alguém ou de algo, sempre esteve presente seja na vivência ou na maneira de expressar o corpo. Entendi que foram as marcas históricas de um passado escravagista que oprimia os corpos e a vivência de meus ancestrais, que naturalizou o preconceito contra nossos corpos até hoje.

Percebi que ser homem significa ter privilégios, mas que enquanto homem negro o privilégio tem outro significado, passa a ser uma imposição, porque pode vir junto com: ser uma ameaça, sofrer ameaça de morte, de violência e de virilidade inquestionável.

Que viver uma heterossexualidade não-normativa, não-binária e não-compulsória, faz as pessoas duvidarem de toda a uma vivência apenas por ser diferente da maioria das relações heterossexuais.

Dialogando através de questões como citei que direcionarei meus textos. Tendo sempre em mente que as pessoas não são iguais, que a diferença é que é legal, que é bacana!

A igualdade deve ser de direitos e acesso. Onde a igualdade respeite a diferença e suas especificidades e a diferença de cada indivíduo englobe a todas as pessoas pela igualdade.

Autorretrato: Teófilo Reis

“Não há passagem garantida do ativismo radical do passado para as posições progressistas contemporâneas”, diz Angela Davis em Democracia da Abolição. Creio que podemos ir além: não há garantias de que nossos aliados em algumas pautas políticas não atuarão como opressores em outras frentes. Meu nome é Teófilo Reis, sou homem negro cis. Entendo que é fundamental pensar a questão dos negros no Brasil como sendo uma discussão central  para o projeto político de nosso país. Neste sentido, a discussão das masculinidades e sua intersecção com a negritude é um ponto importante.

Sou doutorando em Filosofia na Unicamp, militante do Núcleo de Consciência Negra e diretor do Sindicato dos Trabalhadores da mesma universidade. Quero ajudar a promover aqui no Negros Blogueiros discussões sobre as masculinidades negras, sobre o papel do homem negro na sociedade, sobre a importância de se pensar a negritude interseccionada com outras questões, com especial destaque para as discussões de gênero, sexualidade e classe, além de discussões de caráter geral sobre o racismo.

Autorretrato: Marcus Vinícius

Me chamo Marcus Vinícius mas por vezes me chamam de Marquinhos, então fiquem bem a vontade ao se dirigir a minha pessoa, sou carioca do Engenho de Dentro, professor de Educação Física atividade que não exerço por me reconhecer e me identificar com o papel de educador social e mediador de boas ideias para a construção de um mundo mais bacana a todos e todas.

Tenho  37 anos, do signo de sagitário (arqueiro gentil , filho de Saturo, com um humor do cão), gosto do diálogo, da liberdade de ser e de pensar, tenho pouca vocação a competição (acho que por ter Macunaima e Saci como figuras que me guiam) mas não fujo a luta diária. Gosto de olhar  o cotidiano, as cores, as coisas, suas formas e transformações,  a música  e a fotografia pontuam boa parte desta leitura que faço do mundo e são companheiras inseparáveis por todo o dia (por entender que a cultura é renovadora e provoca uma ebulição no pensar).

Gosto de gente que criam ciclos e não daquelas que andam em círculos, digo que amo os amigos e parceiros (mas também brigo com estes que gosto), costumo me definir com uma  frase de Clarice Lispector autora que faz minha mente fervilhar: “Liberdade é pouco o que desejo ainda não tem nome”, após apresentações feitas sigamos para nosso contato e conexão oque nos trará bons diálogos.

Autorretrato: Patrick Lima

Entre prisões surge Zumbi

O desafio de escrever meu primeiro texto em um projeto tão pioneiro e empoderador, me enche de orgulho e, ao mesmo tempo, arrepios. Expressar em palavras minha recente vivência masculina e preta, há pouco tempo me parecia distante e inexplorada.

Tenho experimentado com receio as demandas da masculinidade negra, o pavor que causamos e a sensação de não pertencimento. A mesma sensação de não pertencimento que perdurou por anos, enquanto uma lésbica negra masculina, que não era ouvida ou sequer lembrada. O mundo é cruel para as mulheres pretas. O mundo é cruel para os homens pretos. Transicionar, foi experimentar os níveis de cerceamento e policiamento do corpo negro. De cis(1) para trans(2), do objeto de desejo para ameaça. Hoje, sou cobrado por não vivenciar de forma apropriada a negritude masculina, viril, “avantajada” e dominadora.

Um episódio recente em uma loja de roupas, onde fui quase escoltado para fora por ser “suspeito”, leia-se preto, foi como um despertar para as questões de negritude. Me peguei divagando sobre como a nossa pele, nosso cartão de visita, nos estigmatiza, nos deixa a margem. Me dei conta, depois de muito me questionar, que eu era um corpo perigoso que precisava ser policiado.

Minha luta é pelo direito de existir. Pelo direito ao meu corpo, a minha pele, a minha cor. Minha luta é contra o cistema(3) racista que ainda insiste em me aprisionar enquanto homem negro, e a me estudar enquanto homem trans.

Prazer. Sou um corpo negro, trans, vivo, que resiste e se empodera com o coletivo e com estas escrevivências. E viva Zumbi!!! Que sobrevive em cada corpo preto que quebra as correntes diariamente.


(1) Cis / cisgênero: Indivíduo que vive de acordo com o gênero designado ao nascimento.

(2) Trans / transexual: Indivíduo que possui uma identidade de gênero diferente da designada no nascimento.

(3) Cistema: Sistema regido por pessoas cisgêneras.