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Teófilo Reis

Sobre Teófilo Reis

Teófilo Reis é homem negro cis.

Tradução: James Baldwin, Minha prisão estremeceu (do livro The fire next time)

Quero compartilhar uma tradução que fiz de um texto de James Baldwin. Trata-se da carta My Dungeon Shook — Letter to my Nephew on the One Hundredth Anniversary of Emancipation, que integra o livro The fire next time, publicado em 1963.

O livro foi publicado numa época de grande agitação em torno das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. James Baldwin, um dos grandes autores negros estadunidenses, traz a temática racial ao longo de toda sua obra, e The fire next time é um de seus livros mais celebrados.

Antes de passar à tradução propriamente dita, faço duas observações: primeiro, optei por não traduzir o termo nigger, que é uma palavra com conteúdo extremamente ofensivo (tanto que muitas vezes a palavra nem é escrita por inteiro, mas mencionada como the ‘n’ word) no contexto estadunidense, sendo utilizado como xingamento dirigido a pessoas negras. Podemos pensar num significado próximo a preto sujo, neguinho, crioulo. A segunda observação é com relação ao uso intercalado de você e teu, tua. Optei por fazer tal utilização para manter um tom mais coloquial para a carta, que penso refletir melhor o conteúdo do texto original.

Minha prisão estremeceu: carta para meu sobrinho no centésimo aniversário da emancipação

Querido James,

   Cinco vezes eu comecei essa carta, e cinco vezes eu a rasguei. Eu fico vendo seu rosto, que é também o rosto de seu pai, meu irmão. Assim como ele, você é duro, sombrio, vulnerável, genioso – com uma tendência muito clara para soar truculento, porque você não quer que ninguém pense que você é frágil. Talvez você seja como seu avô quanto a isso, não sei, mas com certeza você e seu pai são muito parecidos com ele fisicamente. Bem, ele está morto, ele nunca te viu, e ele teve uma vida terrível; ele foi vencido muito antes de morrer porque, no fundo de seu coração, ele realmente acreditou nas coisas que as pessoas brancas disseram sobre ele. Essa é uma das razões pelas quais ele se tornou tão religioso. Eu tenho certeza que seu pai te falou algo sobre isso. Nem você nem seu pai mostram qualquer tendência para religiosidade: vocês são de uma outra era, parte do que aconteceu quando o negro deixou sua terra e veio para o que o falecido E. Franklin Frazier chamou de “cidades da destruição”. Você só pode ser destruído se acreditar que você é aquilo que o mundo branco chama de nigger. Eu te digo isso porque eu te amo, e, por favor, não se esqueça disso jamais.

Eu conheci vocês dois a vida toda, carreguei seu pai nos meus braços e ombros, beijei e bati nele e o vi aprender a andar. Não sei se você já conheceu alguém assim há tanto tempo; se você já amou alguém assim ao longo de tanto tempo, primeiro como bebê, depois como criança, depois como um homem, você passa a ter uma estranha perspectiva sobre tempo e dor e esforço. Outras pessoas não conseguem ver o que eu vejo sempre que eu olho o rosto de seu pai, pois por trás do rosto dele como é hoje estão todos os rostos que já foram dele. Quando ele gargalha, eu vejo um porão do qual seu pai não se lembra e uma casa da qual ele não se lembra, e eu escuto na risada de hoje a risada dele quando criança. Deixe-o praguejar e eu me lembro dele caindo dos degraus do porão, e reclamando, e eu lembro, com dor, de suas lágrimas, que minhas mãos e as de sua avó tão facilmente enxugavam. Mas as mãos de ninguém conseguem enxugar as lágrimas que ele derrama invisivelmente hoje, que podem ser ouvidas em sua risada e em suas falas e em suas canções. Eu sei o que o mundo fez ao meu irmão e como foi sufocante pra ele sobreviver a isso. E eu sei, o que é muito pior, e é esse o crime do qual eu acuso meu país e meus conterrâneos, e que nem eu, nem o tempo nem a história jamais perdoaremos, que eles destruíram e estão destruindo centenas de milhares de vidas, e não o sabem e nem querem saber. As pessoas devem ser, e na verdade se esforçam para ser duras e filosóficas com relação a destruição e morte, e é nisto que a maior parte da humanidade tem sido boa desde que se tem notícia dos seres humanos. (Mas lembre-se: a maior parte da humanidade não é toda a humanidade). Mas não é admissível que os autores da destruição também sejam inocentes. É a inocência que constitui o crime.

Agora, meu xará, esse povo inocente e bem intencionado, seus conterrâneos, fizeram com que você nascesse em condições não muito diferentes daquelas descritas pra nós por Charles Dickens na Londres de mais de cem anos atrás. (Eu ouço o coro dos inocentes gritando “Não, isso não é verdade! Como você é amargo!” – mas eu estou escrevendo esta carta para você, para tentar te dizer alguma coisa sobre como lidar com eles, pois a maioria deles sequer sabe que você existe. Eu sei as condições nas quais você nasceu, pois eu estava lá. Seus conterrâneos não estavam lá, e ainda não estão. Sua avó também estava lá, e ninguém jamais a acusou de ser amarga. Sugiro que os inocentes confirmem com ela. Não é difícil achá-la. Seus conterrâneos também não sabem que ela existe, embora ela tenha trabalhado pra eles durante as vidas deles inteiras).

Pois bem, você nasceu, aqui está, coisa de quinze anos atrás; e embora seu pai, sua mãe e sua avó, olhando as ruas pelas quais te carregavam, vigiando as paredes nas quais eles te trouxeram, tivessem todos os motivos se sentirem melancólicos e com os corações pesados, eles não o fizeram. Pois aqui você está, Grande James, batizado com meu nome – você foi um bebê grande, eu não – aqui você está: para ser amado. Para ser amado, meu caro, com força, de uma vez, e pra sempre, pra te fortalecer contra o mundo sem amor. Lembre-se disso: eu sei quão negro isso parece hoje pra você. Parecia ruim naquele dia também, sim, nós estávamos tremendo. Nós ainda não paramos de tremer, mas se nós não tivéssemos amado uns aos outros, nenhum de nós teria sobrevivido. E agora você deve sobreviver porque nós te amamos, e pelos seus filhos, e pelos filhos dos seus filhos.

Este país inocente te jogou num gueto no qual, de fato, era esperado que você morresse. Deixe-me colocar com todas as letras exatamente o que eu quero dizer, pois o coração da matéria está aqui, bem como a origem da minha luta com meu país. Você nasceu onde nasceu e encarou o futuro que encarou porque você é negro e por nenhum outro motivo. Esperava-se que os limites de sua ambição estivessem, então, estabelecidos pra sempre. Você nasceu numa sociedade que disse com todas as letras e com brutal clareza, e de tantas maneiras quantas fossem possíveis, que você era um ser humano sem valor. Não era esperado de você que aspirasse a excelência: esperava-se que você se conformasse com a mediocridade. Onde quer que você tenha ido, James, eu seu curto tempo nesta terra, foi dito a você onde você poderia ir e o que poderia fazer (e como poderia fazê-lo) e onde poderia viver, e com quem poderia se casar.

Eu sei que seus conterrâneos não concordam comigo sobre isso, e eu os ouço dizer “Você está exagerando”. Eles não conhecem o Harlem, e eu conheço. Você também. Não aceite as palavras de ninguém para nada, inclusive as minhas – mas confie na sua experiência. Saiba de onde você veio. Se você souber de onde você veio, não haverá de verdade nenhum limite para onde você pode ir. Os detalhes e símbolos de sua vida foram deliberadamente construídos para fazer você acreditar no que as pessoas brancas dizem sobre você. Eu te peço, tente lembrar que o que eles acreditam, bem como o que eles fazem e causam sofrimento em você, não atestam a tua inferioridade, mas sim a desumanidade deles, e o medo.

Por favor tente ser claro, meu querido James, em meio à tempestade que enfurece sua jovem cabeça hoje, sobre a realidade que está por trás das palavras “aceitação” e “integração”. Não há motivo pra você tentar ser como as pessoas brancas, e não há base alguma para a impertinente suposição deles de que eles devem aceitar você. O que é verdadeiramente terrível, meu camarada, é que você deve aceitá-los. E eu digo isso muito seriamente. Você deve aceitá-los, e aceitá-los com amor. Pois esse povo inocente não tem outra esperança. Eles estão, na verdade, ainda presos a uma história que eles não entendem; e até que eles a entendam, eles não podem ser libertados. Eles tiveram que acreditar, por muitos anos e por inúmeras razões, que os homens negros são inferiores aos homens brancos.

Muitos deles, na verdade, sabem que não é assim, mas, como você descobrirá, as pessoas acham muito difícil agir de acordo com o que sabem. Agir é estar comprometido, e estar comprometido é estar em perigo. Nesse caso, o perigo, nas mentes de muitos americanos brancos, é a perda de suas identidades. Tente imaginar como você se sentiria se você acordasse uma manhã e encontrasse o sol brilhando e todas as estrelas em chamas. Você ficaria apavorado porque está fora da ordem natural. Qualquer perturbação no universo é assustadora porque ataca profundamente o senso de realidade. Ora, o homem negro tem funcionado no mundo do homem branco como uma estrela fixa, um pilar imóvel: e à medida que ele se move, céu e terra são chacoalhados desde as profundezas.

Você, não tenha medo. Eu disse que era esperado que você fosse destruído no gueto, morresse por nunca ser permitido ir além das definições do homem branco, por nunca ser permitido soletrar seu próprio nome. Você, e muitos de nós, derrotamos essa intenção; e, por uma terrível lei, um terrível paradoxo, aqueles inocentes que acreditavam que teu aprisionamento os deixaria mais seguros, agora perdem a compreensão da realidade. Mas esses homens são seus irmãos – seus perdidos e mais novos irmãos. E se a palavra integração significa algo, isto é o que ela significa: que nós, com amor, devemos forçar nossos irmãos a se enxergar como são, a parar de escapar da realidade e começar a mudá-la.  Pois esta é a sua casa, meu amigo: não permita que te expulsem dela; grandes homens alcançaram grandes feitos aqui, e o farão de novo, e nós podemos fazer da América o que a América deve ser.

Será difícil, James, mas você descende de fortes camponeses, de homens que colheram algodão e represaram rios e construíram estradas de ferro e que, enquanto passavam pelos mais indescritíveis terrores, alcançaram uma inquestionável e monumental dignidade. Você vem de uma longa linhagem de grandes poetas, alguns dos maiores desde Homero. Um deles disse “No instante em que pensei não haver mais solução, minha prisão estremeceu, e as correntes foram ao chão”.

Você sabe, eu sei, que o país celebrará cem anos de liberdade, cem anos muito em breve. Nós não poderemos ser livres até que eles sejam livres. Deus te abençoe, James, e que Ele te acompanhe.

Seu tio,

James

Não precisamos falar sobre o Holiday (ou Da espantosa humanidade dos negros)

A recente eleição de Fernando Holiday, uma das lideranças do MBL – Movimento Brasil Livre, para a Câmara paulistana promoveu nova onda de comentários acerca dos posicionamentos do futuro vereador de São Paulo. Holiday é negro e gay, e se posiciona contra pautas historicamente defendidas pelos movimentos negros, como a política de cotas raciais e a comemoração do dia 20 de novembro como dia da consciência negra. Para muitas pessoas as posições de Holiday geram espanto: como pode um negro ser contra o movimento negro? Entender a essência de tal espanto é importante e revelador. E para fazer isso, não precisamos falar sobre o Holiday.

Começo por pontos que deveriam ser obviedades: negros são humanos, e humanos são diversos. Portanto, a diversidade entre os negros não deveria gerar nenhum tipo de surpresa. O fato de a política brasileira há tempos ser dominada por homens brancos e ainda assim exibir uma pluralidade de visões mostra que pertencimento étnico-racial não determina alinhamento político. Por que, então, espera-se que todos os negros tenham o mesmo posicionamento político? O racismo apaga singularidades e subjetividades e desumaniza as pessoas negras, reduzindo-as a uma única coisa: uma massa negra. Despidas de sua humanidade, as pessoas negras passam a ser um todo homogêneo, sem distinções interiores.

Uma das consequências da diversidade negra é a existência de debates internos. Debater é saudável, e um debate sério pode produzir muitas coisas interessantes. No entanto, quando o debate se dá entre negros, não é incomum vermos setores brancos politizados (lembremos: o racismo no Brasil é ambidestro) usar a existência de divergência como arma para desqualificar a questão: “nem eles mesmos sabem o que querem!”. A ausência de homogeneidade entre brancos nunca foi impeditivo para nada. Aliás, sempre foi considerada como prova de sofisticação, pois enriquece o debate e demonstra a convivência democrática com a pluralidade. Se a ausência de homogeneidade ocorre entre negros, aí a coisa muda de figura: o discurso da sofisticação é substituído pela visão de um povo que não sabe o que quer, que é briguento e discute por coisas sem importância.

Superada a primeira obviedade e sabendo que os negros não são monolíticos, passo à segunda obviedade: discussão política se faz com argumento político, não com racismo. Na arena política, não vale tudo pra ganhar um debate, e lançar mão de racismo para derrotar um interlocutor negro, por mais tacanho que tal interlocutor possa ser (pois da humanidade dos negros decorre a existência de negros de diversos tipos, incluindo negros brilhantes e também negros tacanhos), é tão criminoso quanto atitudes racistas em outros contextos. Para muitas pessoas pode parecer que discordar de um interlocutor negro já é, por si, um ato de racismo. Embora tal visão seja tola, ela se integra bem ao raciocínio daqueles que enxergam os negros como homogêneos: com tal suposição, atacar um negro é quase como atacar a negritude. De forma análoga, ter um único amigo negro atesta proximidade com todos os negros, e assim obtemos de forma lógica o famoso “Não sou racista, tenho um amigo negro”. É fácil perceber que além da suposição da homogeneidade, há outro erro no raciocínio: a confusão entre argumento e argumentador.

É interessante lembrar dos ensinamentos de Cornel West, filósofo negro estadunidense. No texto As armadilhas do raciocínio de base racial, publicado em 1994, West relembra o caso da indicação de Clarence Thomas, figura problemática para o movimento negro de seu país, à Suprema Corte no governo Bush. Para West, a adoção de noções rebaixadas de negritude e autenticidade negra fez com que o movimento negro tivesse dificuldade para criticar Thomas. West enfatiza que, para além do aspecto físico, a negritude também é composta por escolhas éticas e políticas relacionadas ao combate ao racismo. Na ausência de uma concepção amadurecida de identidade negra, os debates políticos ficam rebaixados a uma questão de pigmentação, criando, nas palavras de West, “um enganoso manto de consenso racial”.

Reconhecer a humanidade dos negros não é nenhum favor. Eu, negro, não agradeço ninguém por reconhecer que sou humano. Tal reconhecimento é, no campo político, condição necessária para existência de uma política minimamente séria. Aqueles que não conseguirem digerir as consequências da humanidade negra continuarão nadando contra a corrente, numa tentativa frustrada de sobreviver a uma avalanche de fatos que contrariam suas análises rasas. Que se afoguem todos.

Não amarás – Teófilo Reis

Polônia, década de 1980. Um homem jovem fica obcecado por uma mulher mais velha que ele. Ele a espiona, providencia formas invasivas de encontrá-la, viola sua correspondência, procura maneiras de boicotar os encontros românticos de sua admirada. Depois de algum tempo nutrindo um amor platônico, o jovem finalmente se declara e diz estar amando. O sentimento não é correspondido: inicialmente a resposta é ríspida, e num segundo momento, sarcástica. O jovem tenta se matar, e sua musa se enche de um sincero sentimento de culpa pelo ocorrido.

    O parágrafo acima é meu resumo do filme Não amarás, dirigido pelo polonês Krzysztof Kieslowski.

    Brasil, anos 2000. Um homem jovem e negro desde a tenra infância é visto como um futuro garanhão. A sexualidade descontrolada e selvagem, que desde então atribuem à criança, é tida como chave de leitura para seu futuro. Suas ações são vistas de forma sexualizada: toda aproximação com relação a meninas é tida como mostra do apetite sexual. A ojeriza a tocar outros homens também é estimulada desde pequeno. Qualquer atitude que possa vir a ser interpretada como o que se considera feminina é prontamente coibida e ridicularizada.

    As possibilidades de afeto na vida de um homem negro são atravessadas não só pela masculinidade, mas também pela negritude. Há questões importantes que devem ser levadas em consideração quando voltamos nossa atenção para o afeto na vida dos homens negros. Como podemos pensar a possibilidade de afeto ao mesmo tempo em que a imagem que se faz do homem negro é a de um predador sexual com uma tendência inata para a violência? Como se dar direito ao afeto quando a auto-imagem é frequentemente calcada em valores desumanizantes?

    A masculinidade tida como padrão impõe aos homens, desde pequenos, uma série de proibições que devem ser observadas para se “garantir” o merecimento do título de homem. Na sociedade machista em que vivemos, esse padrão comportamental é tido como o natural, o correto. Qualquer desvio, por mínimo que seja, implica numa imediata reclassificação, passando-se do que nossa sociedade misógina classifica como céu diretamente para o que é tido como o inferno: o homem torna-se uma mulherzinha. A este padrão de comportamento dividido por gênero acrescenta-se um componente racial, que retira das pessoas negras sua humanidade e as dota de sexualidade e brutalidade: saem de cena seres humanos negros e sobem ao palco da história brasileira a mulata fogosa e o negão insaciável, ambos excelentes para o sexo e para o trabalho pesado, mas indignos de respeito, pois são violentos, estúpidos e pouco confiáveis. Se não são dignos de respeito, o que dizer de cuidado, de carinho, de amor?

    Como sujeitos inseridos na sociedade, muitos de nós, homens negros, tendemos a nos comportar como os demais homens, e portanto a ter comportamentos machistas. A aceitação tácita de uma noção tacanha de masculinidade – opressora por si só, e em especial para nós negros – cria barreiras que podem dificultar nossa capacidade de estarmos abertos para dar e receber afeto. Se para entrar no clubinho da masculinidade há um preço a se pagar, o ingresso dos homens negros é mais caro que o dos homens brancos: nossa sexualidade é mais vigiada, nosso corpo deve se encaixar num estereótipo, nossas preferências precisam estar de acordo com o que desejam de nós, e não com o que de fato desejamos.

    Enquanto indivíduos que vivem numa sociedade hetero e cis-normativa, infelizmente também estamos propensos a reproduzir atitudes precoceituosas com relação a sexualidades e identidades de gênero. Precisamos descontruir em nós os preconceitos, precisamos lembrar que afeto e ato sexual são coisas distintas, para que possamos receber mais afetos e ser mais afetuosos. Quantos de nós não deixam de abraçar ou beijar outros homens próximos a nós, como pai e irmãos?

    Os efeitos do racismo por si só já são pesados demais para que tenhamos que carregar adicionalmente o fardo de uma noção obtusa de masculinidade. Penso que a saída – coletiva e a longo prazo – não está em “subir o valor do ingresso” pra todo mundo. Se for interessante manter o clubinho da masculinidade existindo (e acho interessante pensar se realmente vale a pena), precisamos, no mínimo, de uma mudança radical. Precisamos de masculinidades leves e não opressivas, que não imponham obstáculos para a felicidade. Precisamos de uma sociedade sem racismo, sem machismo, sem transfobia, sem lgbt-fobia, sem discriminações. Enquanto lutamos para construir essa sociedade, vamos levando nossas vidas. Vamos resistindo e questionando o lugar de ausência de afetos que nos foi relegado. Ao não amarás que nos é dito, respondemos com a crítica de que objetificação não é amor, obsessão não é carinho, controle não é cuidado, e que queremos afetos verdadeiros. Na nossa versão de Não amarás, não aceitaremos abuso como se fosse algo bom, e não nos sentiremos culpados por fazê-lo.

    Encerro com um relato bastante pessoal. Aqueles que me conhecem pessoalmente sabem que sou bastante reservado. Há algum tempo percebi que eu tinha dificuldade de tocar as pessoas, mesmo as mais próximas. Aos poucos comecei a me questionar os motivos desta dificuldade, e tentei contorná-la, por ser algo que eu percebia estar me distanciando de pessoas queridas. Neste processo de entendimento de minhas atitudes, medos e reservas, me conheci melhor, entendi melhor meu lugar na sociedade. Do não amarás até o amarás a ti mesmo e aos próximos, o caminho é longo, mas a jornada é muito gratificante. Para aqueles que tiveram sua humanidade negada, o amor a si próprio e aos seus impõe uma derrota a uma ideologia que há tempos paira sobre nossa sociedade e nossos ombros. Sigamos cada vez mais vitoriosos.

Modos de ser homem negro: Teófilo Reis

Nós, homens negros, precisamos conversar. E o assunto da conversa deve ser nós mesmos. Sim, precisamos conversar sobre as diferentes masculinidades e como o racismo impacta nossas vivências. Precisamos compreender que mesmo sendo tão diversos, temos algo em comum: somos homens negros.

bell hooks inicia seu texto Alisando o nosso cabelo reconstruindo um momento rotineiro de sua infância: as manhãs de sábado, quando as mulheres se reuniam para alisar seus cabelos. O alisamento, que simbolizava também o abandono da infância para adentrar o mundo das mulheres, era também um momento de cuidado umas com as outras e consigo mesmas. Em outro texto (Vivendo de amor), hooks fala da importância da vida emocional. É sobre esta importância que quero pensar um pouco.

Vivemos numa sociedade profundamente racista. O racismo à brasileira deteriora tudo o que toca, e quase nada escapa de seu alcance. Até mesmo a vida é relativizada pelo racismo: uma morte é uma tragédia, mas a execução de cinco jovens negros é tida como um mero despreparo policial, ou no máximo como um problema que não tira o sono de quase ninguém. Parece-me muito nítida a mensagem que nós homens negros recebemos da sociedade: nós somos descartáveis.

Mesmo descartáveis, aqui estamos. Isto significa que a carga do racismo ficou para trás? De forma alguma! Nossos corpos são animalizados, hipersexualizados e valorizados apenas para os trabalhos mais precários. Nossos traços são lidos como sinais de que somos potencialmente perigosos, violentos, inimigos da ordem e da civilização.

Nesse salve-se quem puder, cada um sobrevive como pode. Mas o jogo é cruel: não existe maneira de vencê-lo. Enquadrar-se no padrão admissível (ou seria melhor dizer tolerável?) de homem-negro-cis-hétero signifca resignar-se a um lugar social pré-estabelecido e sufocar as potencialidades da vida emocional, já que a masculinidade padrão assim o exige, e a negritude é lida como reforçadora do aspecto da força e da brutalidade. Desviar do padrão é submeter-se a mais uma série de obstáculos: homem-negro-trans tem, de partida, o não-reconhecimento de sua identidade por grande parte da sociedade; a homo/bi/a-sexualidade também leva a obstáculos adicionais. Em todos os casos, a vida emocional fica sufocada, quase impossibilitada de se desenvolver.

O cuidado de si e dos seus, como descrito por bell hooks, é uma forma de injetar novo fôlego na vida emocional. Para que tal feito se efetive, é necessário haver o reconhecimento de si mesmo como merecedor de cuidados, e também é preciso identificar aqueles que serão reconhecidos como os “seus”. Assim é fundamental olharmos uns para os outros de forma fraterna. Nós já somos vistos como um grupo, como uma fraternidade, pela sociedade que nos extermina. Precisamos resignificar essa fraternidade negra para que possamos descontruir um processo histórico que nos faz ser vistos como não merecedores de respeito ou nem dignos de afetos positivos.

Nós, homens negros, precisamos conversar. Conversar entre nós, e também com nossas companheiras mulheres negras, que já se articulam para pensar o cruzamento das questões de raça, gênero e sexualidade. Nós homens negros precisamos ouvir nossas companheiras, precisamos aprender. Nós precisamos resistir, sobreviver e ir além: precisamos viver.

Autorretrato: Teófilo Reis

“Não há passagem garantida do ativismo radical do passado para as posições progressistas contemporâneas”, diz Angela Davis em Democracia da Abolição. Creio que podemos ir além: não há garantias de que nossos aliados em algumas pautas políticas não atuarão como opressores em outras frentes. Meu nome é Teófilo Reis, sou homem negro cis. Entendo que é fundamental pensar a questão dos negros no Brasil como sendo uma discussão central  para o projeto político de nosso país. Neste sentido, a discussão das masculinidades e sua intersecção com a negritude é um ponto importante.

Sou doutorando em Filosofia na Unicamp, militante do Núcleo de Consciência Negra e diretor do Sindicato dos Trabalhadores da mesma universidade. Quero ajudar a promover aqui no Negros Blogueiros discussões sobre as masculinidades negras, sobre o papel do homem negro na sociedade, sobre a importância de se pensar a negritude interseccionada com outras questões, com especial destaque para as discussões de gênero, sexualidade e classe, além de discussões de caráter geral sobre o racismo.