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Patrick Lima

Sobre Patrick Lima

Jornalista, Homem trans militante e ativista. Assessor de imprensa e Coordenador Estadual do IBRAT. Membro dos coletivos PreparaNem e FONATRANS.

Mercado negro dos afetos

Ao longo da construção de minha masculinidade, sempre me foi posto a masculinidade hegemônica como um ideal a ser perseguido, como um ponto de chegada a minha caminhada. Esta, porém, sendo branca, classista, normativa e opressora, sempre se pôs a mim como algo inalcançável.

Dentro da subjetividade negra e transmasculina, não há como negar o limbo que nos é imposto perante o imaginário social e o mundo dos afetos. Enquanto mulher negra, foi me ensinado que quanto menos questionasse, mais seria aceita. Que não era de bom tom bancar a “louca”, assim, aceitando tudo de forma muito pacífica. Por outro lado, observo escrevivências de homens negros cisgêneros que também tiveram em sua socialização uma cartilha a seguir, afinal, são séculos de uma reputação viril, maquinada, e até me arrisco a dizer, coisificada. Ousar a desviar de ambos os padrões, é apostar em deboches, escárnio e até mesmo afastamento social.

Muitas são as subjetividades e problemáticas que perpassam a afetividade negra. A coisificação do homem negro, negando sua condição humana, restringindo-se unicamente a suas aptidões físicas e sexuais. Corpos que não só geram desconfiança, mas também corpos que despertam curiosidades e fetiches. Fetiches estes que, quando lançados, influenciam diretamente as relações interpessoais e afetivas, ocorrendo anulação das subjetividades e declínio da afetividade.

Quantos romances em novelas, teatros ou cinemas foram protagonizados por homens negros? Na vida real não é muito diferente. Como bem nos lembra Fanon (1983), a característica principal do homem negro é sua cor, sua etnia e, como tal, não possui sexualidade e sim sexo – um atributo que exala masculinidade ao mesmo tempo em que se assemelha a um animal em contraste com o homem branco. Ainda hoje, podemos observar esse estereótipo do imaginário social ainda ser reproduzido em várias esferas artísticas.

Não podemos esquecer também dos recortes corporais e indenitários. Na esfera homoafetiva masculina, por exemplo, onde gays negros afeminados são rechaçados, vítimas de agressões, chacotas e também solidão. Há também os homens trans negros, que são altamente cobrados por não exercerem a masculinidade negra genuína, reforçando a coisificação e falocentrismo que permeia a negritude masculina. E quantos de nós, negros e negras, compactuamos com isso? Quantos de nós ignoramos as subjetividades humanas além da cor e não adotamos discursos e pensamentos interseccionais?

No ensaio “Vivendo de amor”, Bell Hooks nos esclarece alguns pontos: “A prática de se reprimir os sentimentos como estratégia de sobrevivência continuou a ser um aspecto da vida dos negros, mesmo depois da escravidão. Como o racismo e a supremacia dos brancos não foram eliminados com a abolição da escravatura, os negros tiveram que manter certas barreiras emocionais. E, de uma maneira geral, muitos negros passaram a acreditar que a capacidade de se conter as emoções era uma característica positiva. ”

Infelizmente assim, muitos de nós continuam. Interpretando papéis impostos, negando vontades, nos colocando em segundo plano.

Já não faço mais contas de quantas vezes ao cumprimentar os homens – em sua grande maioria negros – preferiram apenas um sinal com a cabeça, a contato físico (como um aperto de mão), agindo como alguém que preserva sua masculinidade. Não tento mais me inserir. A legitimação de pertencimento ao ‘clube do bolinha’, muita das vezes perpassa por machimos, misoginias, lgbtfobias, entre outras opressões. Não abro mão da minha feminilidade masculina.

Hoje, recusar minha ‘passabilidade’ (um tipo de privilégio por ser reconhecido socialmente como um homem cisgênero – não trans) de modo a afirmar minha transgeneriedade é um ato polítco. Reivindico meu direito e me permito ser um monstro. Um monstro que também é digno de receber e prover afetos.

 

FANON, Frantz. Peles Negras, Máscaras Brancas. Rio de Janeiro: Fator. 1983

HOOKS, Bell. Vivendo de amor. Disponível em: < https://drive.google.com/file/d/0B2_ZK-qR9WEKZDk4ZTM3MDQtNTlkZS00NjAxLTkyYWQtMDc4YzUwNDgxYmY4/view?pref=2&pli=1>  Traduzido por Maísa Mendonça

Modos de ser homem negro: Patrick Lima

Um grito de socorro

Uma sensação estranha tem me rondado ultimamente. Uma espécie de obrigação de celebração diária da vida, afinal o Estado genocida ainda não me encontrou diretamente, embora atinja e afronte toda a comunidade negra diariamente. Como celebrar uma vida negra em meio a tantas tragédias?

Vivenciar a masculinidade negra é, de fato, um desafio e tanto. Não nos é permitido representação em espaços de poder. Encontramos nossos semelhantes em páginas policiais e nos necrotérios. Somos o povo considerado perigoso, comparados ao instinto animal que exalando virilidade (estupradores em potencial?) desde o tempo da escravidão precisa ser policiado. A licença para matar foi declarada à carne mais barata do mercado, afinal, como declarou o filósofo negro Frantz Fanon(1) (1958), o homem negro no imaginário ocidental, não é um homem, antes ele é um negro.

Cada expressão negra que sai de suas casas, por si só, há no mínimo 500 anos, pratica resistência. A grande dúvida é se voltaremos a salvo. Caso contrário, fica a inquietação se a mídia lançaria uma nota como “Efeito colateral da guerra ao tráfico”. Arrisco dizer que o genocídio negro no Brasil tem ceifado vidas tanto quanto países em guerra. O peito sangra, mas jamais calará nossas vozes.

Mas retornando o questionamento inicial: “como celebrar uma vida negra em meio a tantas tragédias?” – Nunca há momento para tal feito. Vivemos em luto de prazo indefinido a cada corpo preto que cai ao chão. Hoje, minha forma de viver a masculinidade negra, é resistir e esperar que eu e meus irmãos de cor não sejamos mais alvos ou desculpas do Estado e da sociedade racista.

Hoje, eu rezo por Wilton Esteves Domingos Júnior, Roberto de Souza Penha, Cleiton Corrêa de Souza, Wesley Castro e Carlos Eduardo da Silva Souza e tantos outros que foram privados de resistir. Resiliência e Ubuntu para todos nós.


(1) Frantz Fanon (1925-1961): Psiquiatra, filósofo e ensaísta francês da Martinica, de ascendência francesa e africana. Fortemente envolvido na luta pela independência da Argélia, foi também um influente pensador do século XX sobre os temas da descolonização e da psicopatologia da colonização.

Autorretrato: Patrick Lima

Entre prisões surge Zumbi

O desafio de escrever meu primeiro texto em um projeto tão pioneiro e empoderador, me enche de orgulho e, ao mesmo tempo, arrepios. Expressar em palavras minha recente vivência masculina e preta, há pouco tempo me parecia distante e inexplorada.

Tenho experimentado com receio as demandas da masculinidade negra, o pavor que causamos e a sensação de não pertencimento. A mesma sensação de não pertencimento que perdurou por anos, enquanto uma lésbica negra masculina, que não era ouvida ou sequer lembrada. O mundo é cruel para as mulheres pretas. O mundo é cruel para os homens pretos. Transicionar, foi experimentar os níveis de cerceamento e policiamento do corpo negro. De cis(1) para trans(2), do objeto de desejo para ameaça. Hoje, sou cobrado por não vivenciar de forma apropriada a negritude masculina, viril, “avantajada” e dominadora.

Um episódio recente em uma loja de roupas, onde fui quase escoltado para fora por ser “suspeito”, leia-se preto, foi como um despertar para as questões de negritude. Me peguei divagando sobre como a nossa pele, nosso cartão de visita, nos estigmatiza, nos deixa a margem. Me dei conta, depois de muito me questionar, que eu era um corpo perigoso que precisava ser policiado.

Minha luta é pelo direito de existir. Pelo direito ao meu corpo, a minha pele, a minha cor. Minha luta é contra o cistema(3) racista que ainda insiste em me aprisionar enquanto homem negro, e a me estudar enquanto homem trans.

Prazer. Sou um corpo negro, trans, vivo, que resiste e se empodera com o coletivo e com estas escrevivências. E viva Zumbi!!! Que sobrevive em cada corpo preto que quebra as correntes diariamente.


(1) Cis / cisgênero: Indivíduo que vive de acordo com o gênero designado ao nascimento.

(2) Trans / transexual: Indivíduo que possui uma identidade de gênero diferente da designada no nascimento.

(3) Cistema: Sistema regido por pessoas cisgêneras.