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Leonardo Peçanha

Sobre Leonardo Peçanha

Leonardo Peçanha é Professor de Educação Física. Especialista em Gênero e Sexualidade, Mestre em Ciências da Atividade Física. Homem Trans. Ativista Transfeminista Negro. Membro apoiador do Comitê Desportivo LGBT do Brasil. Idealizador desse site.

Visibilidade Trans pra quem? Parte II – Um olhar Transmasculino Negro

Nesta mesma data no ano de 2016 eu escrevi o meu olhar sobre as Transfeminilidades Negras.
Hoje vou falar de um local mais específico: o de homem negro trans.

Será que a visibilidade trans, tem transmasculinidades negras?
De uma maneira geral, homens trans e pessoas transmasculinas ainda são invisibilizados. De diversas maneiras e lugares. Tivemos avanços sim, mas ainda percebo uma enorme lacuna sobre as transmasculinidades. Quando esquecem de inserir temas transmasculinos numa programação T ou LGBT, quando somos diminuídos ou colocados e comparados a homens cis, quando não percebem que nossas especificidades são diferentes de demais pessoas trans e tantos outros exemplos que poderia citar aqui. Tudo isso é invisibilização e em alguns casos transfobia.

As vezes tenho a impressão que a presença transmasculina não é bem-vinda. Ser deixado de lado remete a esse pensamento, mesmo que não seja essa a intenção.

Acredito que exista uma grande confusão entre leitura social que muitos homens trans passam a ter e o que de fato é a transmasculinidade. Ter leitura de homem cis – é apenas uma confusão e uma percepção errada que fazem dos homens trans – até porque não sabemos como vamos ficar, socialmente falando, e isso vale para qualquer pessoa trans que faz reposição hormonal, procedimentos cirúrgicos e demais reconstruções corporais. Essa confusão tem relação com atitudes e comportamentos, não entendimento do corpo transmasculino; que nem sempre vai ter o corpo cisgênero como referência por diversos motivos; e determinadas posturas relacionados a masculinidade que são esperados dos homens trans, mas que nem sempre, devido a pluralidade das transmasculinidades acontecerá o que se espera.

Homens trans têm privilégios sim, principalmente de leitura social devido a testosterona, mas a questão é: até que ponto essa leitura protege? E que visibilidade é essa? Dependendo da subjetividade e especificidade do homem trans essa leitura pode se transformar em outra coisa. Como é o caso de homens negros trans.

A cor da pele ligada a leitura social racista do que é ser homem negro, faz com que toda a dimensão de “passabilidade” tenha outro sentido. Os homens negros trans passam a sofrer toda a carga de racismo assim como homens negros cis passam. E dentro dessa masculinidade negra entra demais especificidades que fazem com que a leitura social de ser homem negro caracterize ser ameaça, violência, cobrança de mais virilidade e etc.
Dependendo da marcação que é percebida ou não, as percepções são diferentes. Ser homem negro trans gay, homem negro trans nordestino, ser homem negro trans grávido, ser homem negro trans bissexual, ser homem negro trans gordo, ser homem negro trans com deficiência e por aí vai. Esses são apenas alguns exemplos dentre tantos outros. E entre esses e demais, podem se interligar, fazendo com que as interseções fiquem maior.

Estupro, baculejo de policial, leitura de ameaça são apenas alguns dos medos e receios que homens negros trans, com o tempo passam a perceber que sofrem ou podem vir a sofrer. Essa violência cai com muita força e faz com que muitos homens negros trans fiquem receosos, já que a leitura anterior que era de objeto, hoje passa a ser de ameaça.

Existe também a solidão que muitos homens negros trans passam, por serem cobrados os esteriótipos da masculinidade negra, que muitas vezes é racista e oriunda da época da escravidão.

Ser viril e forte por exemplo, nem sempre será um desejo. E isso deveria ser respeitado para todos os homens negros. O fato do corpo transmasculino negro não possuir um determinado tipo de corporeidade, de genital (da mesma maneira que é esperado de um homem cis negro um pênis grande), faz com que as relações sexuais, afetivas e românticas seja afetada. A priore a “passabilidade” protege socialmente, no íntimo ao se relacionar com as pessoas é questionado determinadas fatores. Por exemplo: o tamanho do genital, qual o genital, virilidade e tudo que é ou pode ser esperado culturalmente da masculinidade negra. Entra aqui também, preconceitos de classe e elitismos que se misturam a características racistas. Ou seja, querem um homem normativo, binário e nem sempre vão encontrar. E isso acaba fazendo com que muitos sejam apenas usados pra sexo. E não que isso seja problema, mas ser objeto sexual, dependendo do contexto também pode ser lido como racismo. Vide a masculinidade e virilidade imposta e esperada do homem negro.

O Brasil é o pais que mais mata pessoas travestis e trans, dentre essas mortes a maioria são pessoas travestis e mulheres trans negras. Homens trans também estão morrendo, estão sendo estuprados, não vão a ginecologistas – por diversos medos e receios – e tudo isso também é violência.  Existem determinados temas que precisam ser mais abordados. Esses são alguns exemplos. Tais temas atrelados a questão racial pode ser mais um fator que vai impedir acessos e gerar transfobia e racismo.

Todas as questões que homens negros trans ou demais homens trans passam não é justificativa pra ser machista, misógino, produzir e reproduzir demais preconceitos. Seja com mulheres ou qualquer outra pessoa. É preciso estar atento para não cair na armadilha do patriarcado. Não se pode naturalizar opressões e violências por ser homem. Opressão e violência não pode ser usado pra legitimar masculinidade.

Enquanto homens trans, a reflexão em pensar as violências e abusos como algo que não deve existir e que precisa ser minimizado sempre. Não se pode compactuar com violências. Muitos, principalmente os que fizeram a adequação de gênero mais tarde, que já vivenciaram essas mesmas opressões antes da adequação/transição de gênero. Homens negros trans e demais homens trans devem ser homens melhores, pois são diferentes dos homens cis. A transmasculinidade passa por outros lugares, teve outros atravessamentos. Homens trans podem mostrar aos demais homens que não precisa ser/ter uma masculinidade tóxica.

As referências de transmasculinidades negras vem crescendo no Brasil. Essa representatividade positiva é muito importante. Hoje temos mais homens negros trans que podem ver no outro alguém igual. Ajudar nesse empoderamento é muito relevante, por diversos motivos que foram citados aqui. A questão racial é determinante para entender o lugar pelo qual homens negros trans perpassam que é bem diferente de demais homens trans.

Empoderar, visibilizar homens negros trans para estarem em diversos espaços é importante pra se fazer valer a representatividade plural das transmasculinidades.

Existimos, resistimos e vivemos.

Precisamos falar sobre racismo no meio LGBT como algo central, não apenas como detalhe.

Ontem, após sair do evento Corpo: artigo indefinido – uma reflexão sobre gênero, fui até a Lapa encontrar minha namorada. Sentamos num bar onde costumamos ir, um boteco bem bacana que vende cerveja barata na Gomes Freire. Logo após chegou um grupo grande de homens brancos cis gays, um deles perguntou ao dono do bar se tinha refrigerante, queriam beber cerveja, mas queriam refri também. O cara do bar disse algo que parecia uma resposta negativa. Eu entendi como se ele tivesse lendo eles como gays e disse que não tinha refrigerante pra eles não sentarem no bar, eu sei que vende refrigerante lá. Nesse momento eu olhei com cara de espanto: como assim, não tem refri?! Tem sim. Eu me espantei me preparando pra falar algo a favor dos gays caso o dono do bar dissesse algo homofóbico. Mas acredito que foi apenas um mal entendido e o dono do bar que é um senhor deve ter falado algo que entendemos errado. Então, eles entraram e esse cara que chegou perguntando, veio cumprimentar eu e minha namorada, apertando a nossa mão.

De repente, esse mesmo cara que entrou e veio nos cumprimentar, começou a falar em tom alto e em bom som para que todas as pessoas do bar pudessem ouvir, um discurso racista bem pesado. Coisas do tipo: pessoas negras se vitimizam muito, pessoas negras só arrumam confusão, a polícia antigamente usou os capoeiristas pra serem policiais, por serem negros pra revidar a violência, que era palhaçada quando uma pessoa negra diz para não tocar no cabelo dela e que tanto pessoas negras quanto brancas tem os cabelos tocados, etc e etc…

Eu fiquei muito incomodado e muito furioso, mas a minha namorada disse que era isso que eles queriam que eu sentisse, que ele estava falando aquilo pra nos atingir. Então, eu comecei a dar o troco na mesma moeda e disse em alto e bom tom: sou um homem negro sim com muito orgulho e também sou LGBT, sou homem de buceta, homem trans. E que as pessoas terão que respeitar homens de buceta e mulheres de pênis sim. Sou liderança do movimento de homens trans e que não ia ser nenhuma bicha branca que ia ser racista comigo e estragar o meu final de noite.

Logo após pagamos a conta e levantamos, e o tal cara racista veio me dizer que eramos conhecidos – debochando – e eu com a cara fechada disse que não era não, e fomos embora.

Ao chegarmos próximo da casa de minha namorada, parte do grupo de gays nos encontrou e disse que estavam no bar, mas que o rapaz amigo deles tinha ido pra outra direção e que aquela situação foi muito complicada, que o rapaz é realmente preconceituoso, que tinha sido chamado atenção de um outro rapaz negro, do grupo jovem o qual fazem parte, grupo jovem do movimento de hiv/aids. Vieram se desculpar. E eu ainda tive que ouvir, de um deles, que foi bom o que aconteceu que ensinou a eles questões que eles não conheciam. E eu falei que não foi bom pra mim, que eu não precisava passar por aquilo pra ninguém aprender nada, e que eu também não tinha visto nenhum movimento deles repreendendo a atitude racista dele.

O que quero mais uma vez ilustrar com tudo isso: não tem como apagar o meu passado, não tem como diferenciar ou separar o fato de eu ser negro, ser trans. Eu sou um homem negro trans e a minha vivência e experiência perpassa por isso. São violências específicas que desde que comecei a ser lido socialmente como homem negro, que venho passando. Antes, quando a leitura era outra, as violências eram outras. E falo aqui de mim. Lidar com esses tipos de violências racistas que também são transfóbicas, não separo uma violência da outra porque entre elas e no meio delas existem violências subjetivas que se entrelaçam, tem sido muito dolorido pra mim. Acredito que violências parecidas acontecem com demais homens negros trans.

Homens negros cis e trans, precisamos nos unir. Precisamos dialogar mais, precisamos trocar estratégias de defesa, estratégias de sobrevivência, porque essa violência desgasta. E é corriqueiro para todos os homens negros. Pra mim em específico, quando comecei a ser lido socialmente como homem e isso tem sido muito desgastante. E acredito que pra demais homens negros trans também. A verdade é que ninguém, cis ou trans, merece viver isso!

Ser lido como ameaça, dói. Ser lido como alguém que vai fazer algo ruim, dói.

Minha masculinidade não perpassa por isso, minha subjetividade transmasculina teve acesso a outras experiências que fazem da minha masculinidade diferente. E isso não quer dizer que eu não tenha privilégios ou que não erre enquanto homem, mas que a minha masculinidade é diferente da que acham que eu posso vir a ser.

No dia internacional do orgulho LGBT, teve bicha cis branca sendo racista. Infelizmente isso é corriqueiro, cotidiano. Até quando vamos achar que isso é detalhe? Quando vamos dialogar de maneira séria e passar a levar as questões de raça e classe como central dentro do movimento trans e LGBT?

Precisamos dialogar, homens negros. Precisamos trocar experiências. Minha adequação de gênero e minha leitura social, não me tornou invisível e muito menos me protege. Nenhum homem, cis ou trans, é uma ameaça apenas por ser negro. Somos seres humanos.

Vamos conversar homens negros, todos nós cis e trans. Precisamos.

Sobre cabelo, transição capilar e marcadores de negritude: um olhar Transmasculino Negro

                                                                           

A mais ou menos um ano eu resolvi deixar meu cabelo crescer novamente, eu já tive o cabelo na altura do glúteo, e dessa vez de maneira livre por eu querer e não por uma “imposição do gênero feminino”. Conforme ele foi crescendo eu fui cada vez mais percebendo como essa atitude perpassava de maneira bem específica na minha vida.

De cabelo raspado, as pessoas me olhavam, e dependendo do local, rolava racismo. Observei pessoas brancas se encolherem ou se sentirem ameaçadas. Quando o black ficou aparente, aí muitas reações somatizaram. Parecia que eu realmente era uma pessoa que estava ameaçando aquele local ou aquelas pessoas.

O cabelo cresceu e eu comecei a usar rabo de cavalo, ficou parecendo um coque, e mais uma vez a leitura mudou. Por eu estar de coquinho, algumas pessoas me olhavam com espanto, não sei ao certo, mas fiquei com a impressão que a leitura era que me viam como um homem negro gay, e que pra ser gay não pode ser negro. E aí o espanto.

Todas essas marcações e experiências que eu tive talvez fossem encaradas de maneira diferente se eu não fosse homem trans. E eu penso no quanto essa leitura e essa obrigatoriedade que as pessoas têm de acharem que temos que seguir uma norma pré-estabelecida, que geralmente é branca e cisgênera, esquecendo que essa maneira de se expressar não é a única.

Eu estive em processo de transição capilar e naquele momento, vivi e tive experiências diversas quanto a estar com pessoas, lugares e espaços diferentes e pude perceber quanto o racismo se manifesta de maneiras diferentes e na minha vivência enquanto homem negro trans, isso se dá de maneira muito subjetiva, específica e que se misturam muito com demais marcadores sociais de classe, raça e gênero. Como se os homens negros trans não pudessem ser femininos, gays, ter posturas não normativas e por aí vai. Porque o que esperam de nós enquanto homem negro é que a gente vá absorver toda a cultura racista de masculinidade negra que nos foi imposta de maneira errada, e quando homens negros trans manifestam posturas diferentes existe o espanto e até a dúvida se de fato é trans. Esses marcadores negativos da masculinidade negra são oriundos do processo de escravidão e quem impôs isso foi o sistema de branquitude.

O que quero dizer, é que a construção da minha masculinidade, está diretamente ligada ao fato de eu ser um homem negro e trans e ser um homem trans potencializa ainda mais marcadores de opressão racistas que são muito sutis e se misturam. Por isso, também, é tão difícil as pessoas entenderem que quando são racistas comigo são transfóbicas e quando são transfóbicas são racistas. Pelo simples fato de não ter como dissociar o ser negro, do ser trans, do ser homem negro e por final do ser homem negro trans.

Um exemplo que fica, é como a cultura negra é subjugada e negada, como se fosse algo ruim ou menor, a ponto de marcadores de raça serem colocados como algo ofensivo. Dizer que uma pessoa que descoloriu o cabelo, fica parecendo com um cantor de pagode pode causar um “sofrimento” enorme em pessoas brancas e isso não é por acaso. Muitos meninos negros descolorem o cabelo e são rotulados de pivete e bandido na rua por policiais e pela sociedade e nesse sentido é uma “ofensa muito grande” quando a gente apenas faz um comentário, sem maldade alguma. A maldade está na cabeça da pessoa branca que se ofende exatamente por se imaginar nesse lugar do pivete e do bandido. Usar como referência uma pessoa de camada social mais baixa, que representa isso, ou uma pessoa negra, não precisa ser encarado como algo depreciativo ou ofensivo. É apenas uma referência não hegemônica e as pessoas brancas (não apenas brancas, mas principalmente) precisam perceber que entender esse tipo de referência como algo ofensivo é racismo, elitismo.

Associar esse tipo de manifestação capilar com pagode, com negritude, sem levar em conta que muitos homens e meninos negros de periferia tingem o cabelo dessa maneira assim como alguns pagodeiros, sem considerar algo bom ou bonito, fica evidente o racismo. Eles entendem essa atitude, não como chacota ou como brincadeira, se sentem lindos. Usar uma referência negra pra elogiar alguém é errado? Entendo que não são apenas pessoas negras que descolorem o cabelo, mas são as pessoas negras que descolorem que são julgadas erradas, que são lidas como marginais. Que tanto medo e esse de ser comparada a uma pessoa com marcadores não hegemônicos e ter como marcador principal o cabelo?

Se fosse um Brad Pitt, ou um outro ator, cantor branco loiro, poderia?

Nesse sentido, mais uma vez fica nítido, como o racismo pras pessoas que não são atingidas, aparece de uma maneira e pra pessoas negras de outra, ou seja, alguém se beneficia enquanto outras são descriminadas, excluídas e lidas como marginais. E quando isso se dá na subjetividade que é a transmasculinidade negra, se torna algo quase que inimaginável. Pois, as marcações são outras, a vivência de homens negros trans são outras e nada disso é levado em conta quando se ofende ou quando um homem negro trans passa por situações de racismo. Nesse caso, a leitura social cisgênera que muitos homens negros trans possuem não ajuda, pelo contrário. E não tem como colocar esses tipos de violência apenas como racismo, pra mim é transfobia também. E por isso a linha tênue fica muito específica pra nós, mas pra outras pessoas que não tem esse tipo de experiências fica algo distante.

E entendo que em relação a outras pessoas trans pode existir leitura de privilégio, mas o contexto muitas das vezes é um forte marcador pra isso.

Quando apontamos a branquitude, estamos dizendo do sistema de poder branco e não a pessoa em específico, não é individual. As pessoas são ensinadas a serem racistas, e isso precisa ser entendido mais do que nunca pelas pessoas brancas, cis e trans. Só assim elas vão passar a reconhecer seus privilégios enquanto pessoas brancas e quem sabe, possam repensar suas atitudes e pensamentos.

Visibilidade Trans: pra quem?

O Dia da Visibilidade Trans é um dia para marcar que as pessoas travestis e trans devem ser resistentes, resilientes. É um dia de luta, assim como todos os outros do ano. Não dá pra comemorar a morte de travestis que são assassinadas com crueldade quase todos os dias. Enquanto ainda estivermos em primeiro lugar como país que mais assassina travestis e mulheres trans no mundo esse dia será de resistência. Tivemos avanços? Tivemos. Mas, continuamos muito, mas muito distantes de ter o básico. Ainda se luta por respeito ao nome e por qual o banheiro usar.

Pensando que visibilidade pode ser também entender o corpo T como legítimo e ressignificado que me questiono: que corpo T é realmente visível?

A construção de corpo modelo que temos como parâmetro hoje é branca, cisgênera, magra, sem deficiência, musculosa e possivelmente lida como a de uma pessoa heterossexual. O que foge a isso sofre com violência. Que pode ou não cruzar com mais de uma dessas particularidades de leitura corporal.

Dentre as travestis e mulheres trans mortas no Brasil, uma grande parcela são de negras e isso não é por acaso.

O corpo negro, e apenas por ser negro, já é desconstruído de toda essa lógica normativa de corporeidade. É evidente que uma pessoa T negra, mesmo que seja lida como cis pela sociedade, em relação a branca tem o corpo menos aceito, mais questionado e hostilizado. Porque é um corpo visto como ameaça.

É nesse sentido que muitos homens negros trans, passam a ser vistos como ameaça ou ameaçadores, nesse caso por exemplo, pela polícia. Realidade que homens negros cis já vivenciam em seu cotidiano. O mesmo pode acontecer com a travesti ou mulher negra trans, onde a que não é lida como negra ou que é branca pode, por exemplo, acessar o banheiro feminino com menos dificuldades, enquanto que a negra, pode ter alguma marca, que nesse caso geralmente pode ser uma marca de negritude, que fuja da norma corporal hegemônica e seja impedida de entrar no banheiro.

E isso faz com que o sentido mais comum de “passabilidade” se perca, pois esses fatores que o corpo negro carrega faz dele ser um corpo que não é “passável”, tanto em relação ao corpo cis quanto a ser indivíduo de uma maneira geral na sociedade, por todas essas dimensões de preconceitos de raça, classe e gênero que em muitas vezes se cruzam no caso de pessoa negras trans.

O corpo trans é um corpo que por muitas pessoas é repudiado, por ser transgressor e isso assusta. O corpo negro trans, faz duas marcantes conexões: a de raça e a transgressão corporal de gênero – isso sem colocar aqui demais subjetividades e especificidades corporal que se possa ter – fazendo com que culturalmente a travesti ou mulher trans negra seja vista como homem negro, como alguém que jamais poderia adequar seu corpo. O pensamento cultural e social das pessoas é achar que homem negro possui uma virilidade inquestionável, uma força braçal grande e que é um reprodutor nato. Tudo isso é racismo, oriundo do processo de escravidão. São também por conta dessas marcações culturais e sociais que a pessoa negra carrega como imposição que o imaginário de negritude trans é tão perverso, fazendo com que muitas travestis e mulheres trans negras sejam assassinadas com requintes de crueldade. Precisamos entender que não se vence racismo com transfobia e nem transfobia com racismo. Não se pode vencer opressão com opressão.

Por isso o empoderamento de uma pessoa T negra é importante e a visibilidade se dá de maneira diferente. Pela dificuldade de acesso e visibilidade que as pessoas negras (cis ou trans) têm na mídia e na sociedade, precisa ter mais visibilidade trans negra positiva. Como vem fazendo Lavern Cox, Janet Mock, Kayden Coleman, Shawn Stinson. Aqui no Brasil podemos citar como exemplos: Alessandra Ramos, Jaqueline Gomes de Jesus, Keila Simpson, Maria Clara Araújo, Marcelo Caetano, Patrick Lima, Lam Matos que são pessoas trans e travestis que ajudam e muito nessa visibilidade e na construção do empodermaneto trans negro.

Precisamos ver mais pessoas trans negras na mídia, mais corpos de pessoas trans gordas, para que as pessoas entendam que pessoas trans e que o corpo trans, é legitimo, com suas subjetividades e particularidades que todo o corpo possui. Todo o corpo é diferente um do outro, nenhum corpo é igual as pessoas não são iguais, as vivências e as maneiras de ver o mundo são diferentes. Os direitos e os acessos sim, deveriam ser iguais a todas as pessoas.

Precisamos também de mais amor para vencer essa guerra contra a morte, contra o genocídio do povo preto, contra genocídio de pessoas travestis e trans, contra a transfobia, racismo, gordofobia, lesbofobia, homofobia, classismo, etarismo, capacitismo. Porque uma pessoa trans pode sofrer outras formas de opressão: a transfobia para algumas pessoas é só uma delas.

E você, enxerga o amor numa pessoa trans e travesti? Numa pessoa travesti ou trans negra?

E o afeto, e o amor, cadê?

Autorretrato: Leonardo Peçanha

Ter um espaço onde escrever o que vivencio e penso é muito bom. Também é desafiador, mas não hesitei em momento algum e segui na ideia de construir algo nesse sentido. Minha vivência que passa desde violência psicológica e física na infância [vividas e observadas], morte da mãe na adolescência; ser lido como mulher masculina lésbica; lesbofobia, racismo, sexismo; mais recente: transfobia institucional, transfobia, racismo me levaram a ir com mais força e levar a frente esse projeto. Não poderia deixar de fazer algo e, através das minhas palavras, passar informação, e tentar sensibilizar as pessoas para a reflexão.

No meio de minha vivência me peguei reconstruindo e ressignificando o meu corpo, dando à vida e ao corpo um outro significado, já que o que é normativo ou padrão não era mais o que me enchia os olhos [se é que um dia encheu].

Conforme fui vivendo, fui aprendendo que resistir sempre foi uma marca presente. Que ao ser lido como mulher negra, vivi situações que como homem negro passaram a ter outra dimensão; que enquanto era lido como lésbica, não imaginava vivenciar determinadas coisas que hoje vivo como homem trans e vice-versa. Vejo que problemas difíceis que achava que tinha antes, hoje são muito mais complexos. Percebi que de um jeito ou de outro sempre fomos “objetos de pesquisa” e que enquanto mulher negra lésbica masculina ou homem negro trans o “ser objeto”, de alguém ou de algo, sempre esteve presente seja na vivência ou na maneira de expressar o corpo. Entendi que foram as marcas históricas de um passado escravagista que oprimia os corpos e a vivência de meus ancestrais, que naturalizou o preconceito contra nossos corpos até hoje.

Percebi que ser homem significa ter privilégios, mas que enquanto homem negro o privilégio tem outro significado, passa a ser uma imposição, porque pode vir junto com: ser uma ameaça, sofrer ameaça de morte, de violência e de virilidade inquestionável.

Que viver uma heterossexualidade não-normativa, não-binária e não-compulsória, faz as pessoas duvidarem de toda a uma vivência apenas por ser diferente da maioria das relações heterossexuais.

Dialogando através de questões como citei que direcionarei meus textos. Tendo sempre em mente que as pessoas não são iguais, que a diferença é que é legal, que é bacana!

A igualdade deve ser de direitos e acesso. Onde a igualdade respeite a diferença e suas especificidades e a diferença de cada indivíduo englobe a todas as pessoas pela igualdade.