Como matar lentamente a si mesmo e os outros e continuar vivendo? Alan Augusto Ribeiro

Como matar lentamente a si mesmo e os outros e continuar vivendo?

Paradoxal, contraditória, direcionada e interessada. Depois de ler o livro Solidão)(1), de J. Cacioppo e W. Patrick, fiquei me perguntando por que estas quatro palavras são usadas repetidamente (e, de certo modo, enigmaticamente!) neste livro para discutir a relação que eles definem como “complexa e obscura” entre desejos, emoções e afetos? Procurei construir uma resposta que pudesse me ajudar a escrever algo sobre o tema “masculinidades negras, emoções e política dos afetos”, escolhido para a produção dos textos deste mês aqui no blog. Fiz o seguinte: separei o “paradoxo e a contradição” do “interesse e o direcionamento“. As duas primeiras palavras me fizeram pensar em como as exigências pelo domínio sobre si eram frágeis, de modo que nossa vontade de poder controlar os modos pelos quais sentimos o que sentimos, manipular o que, como e quem desejamos e direcionar os nossos afetos era limitada. Estas duas primeiras palavras estariam, deste modo, fora de nosso completo domínio individual, estariam além de nossas possibilidades de controle sócio-político e simbólico sobre nós mesmos. Já as duas outras palavras me fizeram pensar que nossos desejos, emoções e afetos não estariam fora do alcance de nossa consciência. Elas se situariam dentro de relações vividas, fazendo com que acreditemos ser possível conduzir e decifrar intencionalmente nossos desejos, emoções e afetos como se fossem forças manipuláveis pela vontade individual. De acordo com as duas últimas palavras, estipulei que poderia pensar em um lugar autônomo do sujeito na História, fazendo-o reaparecer como um ser livre e atuante sobre os próprios sentimentos. Porém, notei que esta leitura dicotômica é uma armadilha: paradoxo, contradição, direcionamento e interesse devem ser vistos mais como elementos correlacionados do que como duplas de opostos, como constituintes de uma totalidade complexa que não nos comprime e não foge de nós, não se submete à nós, não está sob nosso controle e não regula nossas maneiras de sentir, não nos manda e não nos obedece.

Notei também outro problema: estou começando a ver em alguns destes Nós vantagens e desvantagens. “Nós negros” ou “nós homens negros” são retóricas que ajudam em algumas coisas, mas nos iludem em outras, explicam certos processos, mas escondem outros. Tenho 7 irmãos homens negros pobres e vários amigos homens negros pobres, mas sou o único homem negro pobre do meu bairro que teve acesso à um conjunto de discursos e narrativas analíticas que permitem com que eu manipule, diante de uma elite formalmente intelectualizada e informada politicamente, este Nós, possibilitando ilações como “nós somos”, “nós queremos”, “nós sentimos”, “nós desejamos”.

Neste ponto retorno ao enigma das quatro palavras. Sei que muitos de Nós vivem e sentem esta relação complexa e obscura, mesmo que sonhem por um “amor com a nossa cor”! Alguns de nós anseiam por um “amor afrocentrado” que possa reconstituir nossa “família negra”! Isto que alguns de nós acredita estar buscando já existe, mesmo que fora de moldes ideológicos trazidos pelo ativismo político! Muitos vínculos afetivo-sexuais “com a nossa cor” tem se sustentado entre muitos de Nós, há muito tempo! Sou de uma família cheia de relacionamentos entre homens negros e mulheres negras que estão juntos há mais de 30 anos! No texto anterior escrito para este blog, argumentei que o nosso problema não são relações que não existem, mas a qualidade das relações que existem! Sugeri que temos contrabandeado discursivamente experiências individuais como se fossem coletivas e interpretado experiências coletivas como se fossem individuais! É por esta razão que o “Nós” deve saber de que “Nós” estamos falando. Precisamos desfazer um “nó” malfeito neste Nós! Não é todo mundo que acredita que processos psicossociais, conflitos simbólicos e políticas relacionais presentes em sistemas de opressão raciais, sexuais, de gênero e de classe incidem nesta relação entre desejos, emoções e afetos e fazem com que muitos de Nós, homens negros, não consigam lidar com valores como ternura, docilidade e carinho, dificultando renúncias e resignações diante de quem amamos, vendo no espelho este amor com a nossa cor! A maioria de nós, homens negros está dando a mínima para qualquer discussão sobre emoções, afetos e masculinidades negras. Será mesmo? Sei que bell hooks desconfia disso!

Homens negros são vistos como incapazes para articular totalmente e reconhecer a dor das suas vidas. Eles não têm um discurso público nem audiência na sociedade racista que lhes permitam dar voz a sua dor. Infelizmente, os homens negros muitas vezes evocam uma retórica racista que identifica o homem negro como um animal, falando de si mesmos como ‘espécies em vias de extinção’, como ‘primitivos’, em sua tentativa de obter o reconhecimento do seu sofrimento.(…) Quando os jovens negros adquirem uma poderosa voz e presença pública via produção cultural, como já aconteceu com a explosão da música rap, isso não significa que tenham um veículo que lhes permita articular essa dor (hooks, 1992; 35)(2).

       

Esta última afirmação de bell hooks poderia ser invertida sem perder o potencial crítico: foi a música rap que, contemporaneamente, se apresentou como um dos poucos instrumentos públicos por meio do qual esta dor vivida por muitos homens negros urbanos está sendo apresentada, mesmo que esta exposição não traga detalhamentos acerca de certas complexidades psicológica do Eu. Ao nos trazer descrições de contradições vivenciadas diante de realidades sociais excludentes vividas por homens negros, o rap aponta para um caminho por meio do qual podemos discutir tais dores e sofrimentos, mesmo que não o faça com detalhes necessários. De fato, ainda não explicitamos no discurso público que o privilégio masculino nos isenta de um conjunto de preocupações e problemas relacionados aos afetos e emoções vividos por pessoas com quem temos vínculos diretos, como irmães e irmãos, mães e pais, companheiras e companheiros de afeto e de desejo, negros e brancos, mesmo em situação de pobreza e exclusão. Embora isto não nos garanta muito coisa, mesmo que “Nós” homens negros não estejamos preocupados com muitas fragilidades e sofrimentos sociais vividos por outros grupos de pessoas, precisamos falar de sofrimentos e fragilidades, pois isso se contrapõem aos discursos racistas e sexistas! Não existe imunidade emocional quando nós e outras pessoas dizem que somos fortes e resistentes. Ser o “negão”, o “cara grande”, o “forte”, é uma armadilha! Sabemos que existem não-ditos escondidos dentro da gente que nos impedem de falar sobre o que está nos corroendo por dentro; algumas vezes, a gente subscreve estes tropos do “forte”, do “negão”, do “quente”, do “macho”!

Neste mesmo texto, bell hooks assinala que as dificuldades de falar sobre esta dor diz respeito ao modo como brutalização, virilidade e truculência aparecem como ambivalências complexas nas emocionalidades vivenciadas por muitos homens negros. Minha mãe, corrigindo o “filho mal-criado”, espancava-me com um grande pedaço de madeira porque eu “aguentava umas pauladas”. Eu era “grandão”! Ela dizia que “queria o meu bem”, apesar de tudo. Tive uma namorada que queria que eu fosse carinhoso e afetuoso, atenciosos e dedicado, e viril na hora do sexo, incansável. Eu também queria isto dela, mas achava que uma coisa não podia estar ao lado da outra. Sentia-me respeitado pelos caras da minha rua porque era “grandão” e “bom de porrada”, mesmo que fosse isolado de alguns “rolês” porque estudava demais. Minha professora apreciava a dedicação aos estudos porque era difícil que um cara “como eu” fosse dedicado aos estudos!

 Pessoas brutalizam você de um jeito tão sub-reptício e eficiente, durante tanto tempo, que isto pode te levar a pensar que você precisa ser um bruto truculento para ser uma pessoa respeitada. Você começa a pensar que o temor que causa nas pessoas é respeito; isto te enche de “auto-estima”, até o momento em que você percebe que está colocando para fora ressentimentos, afastando, amedrontando e confundindo as pessoas que estão perto de você. Entenda que isto foi colocado dentro de nós, não nasceu conosco! A virilidade pode até nos defender daquilo que julgamos como abusos e desrespeitos, pode até fazer com que a gente pense que está se preservando, fazendo com que nos deleitemos sobre nossa suposta capacidade de provocar prazer sexual, mas ela pode te isolar, afastar aqueles que querem fortalecer você e te apoiar como um sujeito que tem mentalidades e corporalidades, não apenas cabeça e corpo. Se você é brutalizado, visto como um sujeito truculento e viril durante muito tempo, começará a acreditar que não precisa de outras “forças” para ser um sujeito. Eu não quero ser um “espírito opaco”, um “coração ferido” que confunde “recomeçar” com “desistir”! (“Vida loka II, Racionais”)

Devemos perceber que, no momento em que nossa subjetividade é coisificada, nossas complexidades ontológicas são reduzidas ao simplório estereotipado da subordinação política. Neste movimento, estas complexidades passam a ser explicadas somente pela exlcusão, pela marginalização, pela violência, pela virulência: homens negros passam a ser vistos por dentro da hierarquia e da desigualdade, nunca pode dentro dos modos pelos quais estes corpos são masculinidades e racializadas em suas próprias experiências. Mesmo que sujeitos, esta reflexão nos registra como meros predicados! Neste debate sobre desejos, emoções e afetos, um modo de sair deste círculo de reificação no qual as masculinidades negras tem sidos colocadas na história do racismo e do sexismo brasileiro pode estar na estratégias narrativas tecidas pelos próprios sujeitos que vivenciam estas masculinidades racializadas, podendo ser vistas sob a fragmentação e a contradição:

Devemos fazer a nossa História, buscando nós mesmos, jogando [com o] nosso inconsciente, [com] nossas frustações, [com] nossos complexos, estudando-os, não os enganando. Só assim poderemos nos entender e fazer-nos aceitar como somos, antes de mais nada pretos, brasileiros, sem sermos confundidos com os americanos ou africanos, pois nossa História é outra como é outra nossa problemática (Nascimento apud Ratts, 2007; 97)(3).
 .
.

Precisamos tensionar uma lógica binária de pensamento que divide o mundo entre maldade e bondade, positivo e negativo, inferior e superior. Se privilégio é não se preocupar e não se responsabilizar com um conjunto de coisas, de modo que este conjunto de coisas passa a não existir para quem vivencia privilégios, então podemos enfrentar esta fronteira: precisamos descobrir o que os privilégios supostamente colocam para fora do discurso, para fora das narrativas conhecidas e dos vocabulários analíticos e políticos que estão sendo (re)produzidos até este momento de nossa história político-intelectual. Que conjunto de práticas existenciais, vivências políticas e processos simbólicos os diferentes homens negros podem descrever com detalhes e acuidade porque são construídos socialmente como diferentes homens e negros? Como descrever práticas, vivências e processos que estão fora das preocupações destes homens negros? Como conciliar preocupações e vivências com uma “política da responsabilidade com outros sujeitos”? Eu posso ser responsável pelas pessoas com quem me relaciono afetivamente não porque sou um corpo masculinizado e racializado, mas porque esta responsabilidade me ajuda a enfrentar fastasmas raciais que fazem surgir medos masculinos (e vice-versa) que surgem diante do espelho das desigualdades. Somente podemos sentir a precarização de nossas vidas como homens e negros se acreditarmos que existe apenas a masculinidade patriarcal, heterossexual e branca do mundo perfeito! Masculinidades racializadas devem começar a ser vistas como experiências que articulam em torno dos sujeitos que as vivenciam um conjunto de fragilidades afetivas e de sofrimentos emocionais, uma série de contradições psicológicas e de paradoxos políticos. Masculinidades racializadas não estão acopladas nos corpos de homens negros, pois elas não nascem nestes corpos, são colocadas forçosamente nestes corpos. Será que precisamos acessar a masculinidade patriarcal e branca para para sermos sujeitos de uma história, sujeitos que respeitam outros sujeitos? Não, não precisamos desta masculinidade para sermos sujeitos no mundo, para sermos sujeitos para nós mesmos.

Para entendermos como homens negros de diferentes orientações sexuais, de diferentes classe sociais, de distintas orientações políticas, são racializados e masculinizados no contexto brasileiro, precisamos decifrar o que temos chamado de masculinidades negras fora de uma leitura dicotômica entre mente e corpo que retira sofrimentos, sensibilidades, emocionalidades, interesses, intencionalidades e direcionamentos utilitaristas, contradições e paradoxos das vivências destes diferentes homens negros, deixando de conceber o que é geral no particular, evitando particularizar o que é geral.

        Alguns dias atrás estava me perguntando: se na sociedade brasileira homens negros jovens estão morrendo antes mesmo de completar a maturidade, porque esta sociedade precisa prepará-los para lidar com as complexidades da vida social? Se ele pode morrer antes dos 30 anos (e/ou matar para não morrrer!), por que precisa ser educado, escolarizado, sensibilizado, integrado, familiarizado, socializado e amado para uma vida longa? De todo modo, se você chegou até aqui (se é homem negro, está vivo e tem mais de 30 anos) e está lendo este texto confessional, deve estar se perguntando o porquê do título que escolhi. Se você se sentiu provocado por tudo o que leu, então deve ter compreendido minhas provocações! Minha inspiração é o livro sem tradução para o português chamado How to slowly kill yourself and others in America, do escritor negro gay Kiese Laymon (2013; 43), que consiste em um conjunto de textos escritos para mulheres e homens negros, vivos e mortos, familiares e amigos que estiveram e estão na vida de Laymon. O objetivo do livro de Laymon “(…) não é escrever sobre liberdade, mas falar sobre sobrevivência, benefícios e pesos de ser negro”. Este livro tem me inspirado a escrever um livro próprio que consiste em um conjunto de cartas para homens e mulheres negras de minha vida. Neste livro, escreverei para os homens e mulheres negras que estão vivos, considerando-os como se estivessem mortos, advertindo-os sobre como poderíamos nos manter “vivos” diante da violência sexista e racista. Para os segundos, os que estão vivos, tentarei explicar como poderíamos fazer de nossas vidas uma passagem melhor, mesmo diante destas violências que nos tornam “mortos-vivos”! Espero que a mensagem deste livro seja cruel, mórbida, mas esperançosa, auto-defensiva e minimamente honesta, pois quero me ressuscitar como um homem negro feito na contradição e no conflito e vivo. Quero advertir outras pessoas sobre os perigos e delícias de uma vida repleta de rasuras emocionais, riscos afetivos e desejos ambivalentes! Quero terminar com uma mensagem sombria que recebi tempos atrás de uma mãe-de-santo: “meu filho, teu coração tá na cabeça, tua cabeça tá no teu corpo e o teu corpo tá no teu coração!”

(1) CACIOPPO, John; PATRICK, William. Solidão: a natureza humana e a necessidade de vínculo social. São Paulo, Editora Record, 2010.

(2) HOOKS, Bell. Black Looks: Race and Representation. Boston: South End Press, 1992.

(3) RATTS, Alex. Eu Sou Atlântica: Sobre a Trajetoria de Vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial e Instituto Kwanza, 2007.

Alan Augusto Ribeiro
Meu nome é Alan Augusto Ribeiro. Sou estudante da pós-graduação da USP. Sou Antropólogo. Quero ser professor. Sou Paraense. Posso escrever e falar. Quero escutar, ver e ler... Estou na caminhada! Vamos indo...
Alan Augusto Ribeiro

Sobre Alan Augusto Ribeiro

Meu nome é Alan Augusto Ribeiro. Sou estudante da pós-graduação da USP. Sou Antropólogo. Quero ser professor. Sou Paraense. Posso escrever e falar. Quero escutar, ver e ler... Estou na caminhada! Vamos indo...

4 comentários sobre “Como matar lentamente a si mesmo e os outros e continuar vivendo? Alan Augusto Ribeiro

  1. Muito bom o texto, Alan. Aliás, os textos. hehe
    Procurei um contato de email seu, mas não achei.
    Me mande um email, por favor, para que possamos seguir em diálogo, trocas e afetos.
    Abração

    (emproldoma@gmail.com)

  2. Oi! Lendo seus textos acabamos mais uma vez pensando que não se deve aceitar imposições e rotulos previamente formulados e que a postura inicial já abre ou fecha muitos caminhos . Parabéns.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *