Modos de ser homem negro: Alan Augusto Ribeiro

Comecei a ler textos (impressos ou digitais) sobre desigualdade raciais, desigualdades de gênero, desigualdades de classe e outras tantas desigualdades sociais e políticas quando precisei! Estava no quarto semestre da graduação em Ciências Sociais e precisava de dinheiro para continuar o curso. Entrei em um projeto de extensão e consegui uma bolsa de estudos. Neste projeto precisei ler textos sobre raça e racismo, gênero e sexismo, classe e marxismo (naquele momento, estes dois últimos me foram apresentados como conceitualmente equivalentes. Outro dia posso falar sobre isso!).  Atualmente, leio estes textos não porque são necessários, mas porque são fundamentais!! Usando estes textos em minhas pesquisas acadêmicas, uma coisa passou a me instigar nestes últimos anos (nos quais a internet ganhou uma força de divulgação de ideias que, em 2003, não possuía) em que comecei a estudar masculinidades e homens negros: como homens negros “aparecem” nestes textos, seja no mundo intelectualizado das Ciências Humanas, seja no mundo intelectualizado da internet? Juntando tudo o que é dito (e não-dito) sobre homens negros, como “somos” nestes textos?

Sem cerimônias, tenho observado as seguintes ilações sobre homens negros nestes textos: homens negros abandonam suas companheiras mulheres negras, seus filhos, suas mães, seus irmãos (não abandonam o pais, pois este os abandonou antes, certo?). Homens negros morrem, são assassinados, matam, roubam, agridem, são agredidos! Homens negros, quando casam, casam com mulheres brancas, mas sempre procuram ter um vínculo com mulheres negras, tratando-as como amantes. Homens negros abandonam seus vínculos sociais, nunca são abandonados nestes vínculos!! Homens negros, quando ocupam posições de poder, valem-se de abusos de autoridade, expressam frustações raciais sob distúrbios psicológicos em suas relações e se ajustam aos desmandos de brancos poderosos para manter tais posições, mesmo que se encontrem isolados nestas mesmas relações. Homens negros usam o “privilégio patriarcal” para ter várias parceiras, porque não conseguem estabelecer vínculos afetivo-sexuais estáveis e duradouros. Homens negros acreditam que possuem algum poder em decorrência deste “privilégio patriarcal”, mas não mandam em nada, em porra nenhuma!! Homens negros, quando participam dos vínculos sociais com seus filhos ou filhas, parceiros ou parceiros, são apresentados como sujeitos que vivem estes vínculos parcialmente, descontinuamente e insuficientemente.

É isso: homens negros são apresentados retoricamente como desvinculados sociais! Como retóricas, estas ilações estão fora do discurso afirmativo porque o problema não é a ausência de vínculo, mas os modos sociais como são constituídos, as maneiras intelectuais sob as quais são interpretadas. Esta imagem de desvinculado é uma imputação acrítica e faz com que homens negros sejam um “não-lugar”, um “fora do discurso”. Esta imagem de desvinculado resulta de metalepsia (isto é, a consequência é apresentada como causa e a causa como consequência) e, muitas vezes, envolve um raciocínio que destaca a todo pela parte, transforma processos coletivos em escolhas individuais. Homens negros são vistos somente sob a chave das escolhas individuais, dificilmente sob a chave dos processos coletivos. São apresentados como sujeitos integrais racializados e generificados que sabem muito bem o que estão fazendo. Eu não escolhi ser esse monstro retoricamente contrabandeado pelo discurso afirmativo. Eu não sou um desvinculado social! Meus problemas estão dentro dos vínculos sociais e não fora deles. Meus problemas estão nos modos de produção sócio-política das masculinidades. São estes modos de produção das masculinidades que precisamos discutir de modo exaustivo se queremos entender como homens negros se transformam, se tornam e se percebem como homens negros!

Alan Augusto Ribeiro
Meu nome é Alan Augusto Ribeiro. Sou estudante da pós-graduação da USP. Sou Antropólogo. Quero ser professor. Sou Paraense. Posso escrever e falar. Quero escutar, ver e ler... Estou na caminhada! Vamos indo...
Alan Augusto Ribeiro

Sobre Alan Augusto Ribeiro

Meu nome é Alan Augusto Ribeiro. Sou estudante da pós-graduação da USP. Sou Antropólogo. Quero ser professor. Sou Paraense. Posso escrever e falar. Quero escutar, ver e ler... Estou na caminhada! Vamos indo...

7 comentários sobre “Modos de ser homem negro: Alan Augusto Ribeiro

  1. Meu avô era um homem preto, ele teve mais de 20 filhos e sustentou os 20, não abandonou minha avó com quem foi casado por mais de 50 anos. Esse texto é no mínimo auto-depreciativo e tendencioso.

    1. Olá Marcos! Muito obrigado pela participação no debate! É assim que construímos um saber e um discurso de conhecimento sobre nós mesmos!
      Na verdade, se puderes observar novamente o texto, perceberá que se trata de uma crítica e não de uma confirmação! O que faço é reunir o que está mal-dito sobre homens negros e criticar esta imagem mal-dita feita genericamente sobre homens negros!
      De todo modo, obrigado por sua participação! 😉

  2. Olá!
    Meu nome é Edison, o conheci no quadro “Como Será” e quis conhecê-lo um pouco mais.
    Como homem negro, casado com uma mulher também negra, pai de dois filhos, avô de quatro netos e também ativista em movimentos sociais em busca de igualdade vejo esta data como um convite a reflexão, pois todos os dias são dia do homem e mulheres e como são, mas nunca pensamos em quem somos e qual o nosso papel como homem ou mulher, contudo, o debate é outro e aqui temos mais um ponto em destaque além de homem, a questão do homem negro.
    Sinceramente não tenho um ponto construído, mas como sou neto de descendente de escravo, meu avô paterno, minha construção inicia com princípios rígidos falar de igualdade nunca apenas tínhamos que ser “honestos” e estudar e pronto, toda a construção se baseou em experiencias externas externa e em imagem de homens como pai, avô e tios, vizinhos entre outros mas não me lembro, por exemplo, de referencia explícita a respeito de ser homem exceto aquelas as que “na escola não se podia bater mas não se podia apanhar”, não podia brincar de bonecas, casinha, mas podia ir pra rua e brincar de bola, rolar pneus, soltar pipar e como primeiro emprego ser “engraxate” aos sábados, meu primeiro emprego.
    Me interessei pelo assunto e quero Alan falar a respeito e quem sabe mergulhar contigo nesta pesquisa que acredito possa contribuir com meu projeto de vida dado as tantas experiências, contudo, a questão de posicionamento na sociedade creio que o “respeito” ainda que distorcido é poder econômico, este poe fim de imediato em todos os problemas, quando não a necessidade de mostrar as qualidades e provar capacidade e conhecimento e ai precisamos de espaços em todos os seguimentos não para mostrar qual o tipo de homem somos mas que tipo de homem negro somos.
    Edison Jose da Silva, formado em letras, ciência jurídicas, pós graduado em administração e marketing.

    1. Edson, muito obrigado por suas palavras! Fico super contento e realizado em saber que estamos construindo um diálogo críticp sobre nossas vidas e experiências sociais, culturais e políticas! Você gostaria de colaborar com o blog? Escreva um texto e me envie que poderemos publicá-lo! Envie para o inbox do facebook do blog: https://www.facebook.com/negrosblogueiros/

      Grande Abraço, Alan.

    1. Olá Edson, acho que uma obra inicial pode ser o “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freiyre, onde podemos encontrar a descrição do patriarcado brasileiro a partir do contexto escravista! Boa Leitura!

  3. Alan, achei fantástico seu texto, muito objetivo e realista. Por ser um artigo de opinião você conseguiu colocar suas ideias sem transparecer seus ideais. Vou analisar com olhar profissional e não como uma mera leitura e envio a crítica.

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