Precisamos falar sobre racismo no meio LGBT como algo central, não apenas como detalhe.

Ontem, após sair do evento Corpo: artigo indefinido – uma reflexão sobre gênero, fui até a Lapa encontrar minha namorada. Sentamos num bar onde costumamos ir, um boteco bem bacana que vende cerveja barata na Gomes Freire. Logo após chegou um grupo grande de homens brancos cis gays, um deles perguntou ao dono do bar se tinha refrigerante, queriam beber cerveja, mas queriam refri também. O cara do bar disse algo que parecia uma resposta negativa. Eu entendi como se ele tivesse lendo eles como gays e disse que não tinha refrigerante pra eles não sentarem no bar, eu sei que vende refrigerante lá. Nesse momento eu olhei com cara de espanto: como assim, não tem refri?! Tem sim. Eu me espantei me preparando pra falar algo a favor dos gays caso o dono do bar dissesse algo homofóbico. Mas acredito que foi apenas um mal entendido e o dono do bar que é um senhor deve ter falado algo que entendemos errado. Então, eles entraram e esse cara que chegou perguntando, veio cumprimentar eu e minha namorada, apertando a nossa mão.

De repente, esse mesmo cara que entrou e veio nos cumprimentar, começou a falar em tom alto e em bom som para que todas as pessoas do bar pudessem ouvir, um discurso racista bem pesado. Coisas do tipo: pessoas negras se vitimizam muito, pessoas negras só arrumam confusão, a polícia antigamente usou os capoeiristas pra serem policiais, por serem negros pra revidar a violência, que era palhaçada quando uma pessoa negra diz para não tocar no cabelo dela e que tanto pessoas negras quanto brancas tem os cabelos tocados, etc e etc…

Eu fiquei muito incomodado e muito furioso, mas a minha namorada disse que era isso que eles queriam que eu sentisse, que ele estava falando aquilo pra nos atingir. Então, eu comecei a dar o troco na mesma moeda e disse em alto e bom tom: sou um homem negro sim com muito orgulho e também sou LGBT, sou homem de buceta, homem trans. E que as pessoas terão que respeitar homens de buceta e mulheres de pênis sim. Sou liderança do movimento de homens trans e que não ia ser nenhuma bicha branca que ia ser racista comigo e estragar o meu final de noite.

Logo após pagamos a conta e levantamos, e o tal cara racista veio me dizer que eramos conhecidos – debochando – e eu com a cara fechada disse que não era não, e fomos embora.

Ao chegarmos próximo da casa de minha namorada, parte do grupo de gays nos encontrou e disse que estavam no bar, mas que o rapaz amigo deles tinha ido pra outra direção e que aquela situação foi muito complicada, que o rapaz é realmente preconceituoso, que tinha sido chamado atenção de um outro rapaz negro, do grupo jovem o qual fazem parte, grupo jovem do movimento de hiv/aids. Vieram se desculpar. E eu ainda tive que ouvir, de um deles, que foi bom o que aconteceu que ensinou a eles questões que eles não conheciam. E eu falei que não foi bom pra mim, que eu não precisava passar por aquilo pra ninguém aprender nada, e que eu também não tinha visto nenhum movimento deles repreendendo a atitude racista dele.

O que quero mais uma vez ilustrar com tudo isso: não tem como apagar o meu passado, não tem como diferenciar ou separar o fato de eu ser negro, ser trans. Eu sou um homem negro trans e a minha vivência e experiência perpassa por isso. São violências específicas que desde que comecei a ser lido socialmente como homem negro, que venho passando. Antes, quando a leitura era outra, as violências eram outras. E falo aqui de mim. Lidar com esses tipos de violências racistas que também são transfóbicas, não separo uma violência da outra porque entre elas e no meio delas existem violências subjetivas que se entrelaçam, tem sido muito dolorido pra mim. Acredito que violências parecidas acontecem com demais homens negros trans.

Homens negros cis e trans, precisamos nos unir. Precisamos dialogar mais, precisamos trocar estratégias de defesa, estratégias de sobrevivência, porque essa violência desgasta. E é corriqueiro para todos os homens negros. Pra mim em específico, quando comecei a ser lido socialmente como homem e isso tem sido muito desgastante. E acredito que pra demais homens negros trans também. A verdade é que ninguém, cis ou trans, merece viver isso!

Ser lido como ameaça, dói. Ser lido como alguém que vai fazer algo ruim, dói.

Minha masculinidade não perpassa por isso, minha subjetividade transmasculina teve acesso a outras experiências que fazem da minha masculinidade diferente. E isso não quer dizer que eu não tenha privilégios ou que não erre enquanto homem, mas que a minha masculinidade é diferente da que acham que eu posso vir a ser.

No dia internacional do orgulho LGBT, teve bicha cis branca sendo racista. Infelizmente isso é corriqueiro, cotidiano. Até quando vamos achar que isso é detalhe? Quando vamos dialogar de maneira séria e passar a levar as questões de raça e classe como central dentro do movimento trans e LGBT?

Precisamos dialogar, homens negros. Precisamos trocar experiências. Minha adequação de gênero e minha leitura social, não me tornou invisível e muito menos me protege. Nenhum homem, cis ou trans, é uma ameaça apenas por ser negro. Somos seres humanos.

Vamos conversar homens negros, todos nós cis e trans. Precisamos.

Novo Mundo

A Darcy Ribeiro (Leonardo F. de Souza)

Mataram os índios Roubaram suas terras Mataram sua fé E gozaram à nova conquista.

Dá África trouxeram os negros Mercadorias baratas; Roubados de suas terras O novo mundo abria os portais da escravidão sem fim. A fé do homem branco lavou a terra de sangue inocente os pecadores morriam as mulheres estupradas pariam os filhos da nova terra O novo mundo nasceu do estupro, somos filhos do estupro. Índios mortos E os negros chegam aos montes nos portos

– A escravidão se reinventa no Brasil Os barões e as armas assinaladas se recriam num sistema fechado e colonial. São gentes que construíram nosso Brasil do campo as cidades Mas ainda assim são arrastados pelas ruas do novo mundo

– A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.

A escravidão arrastou os índios para fora de suas terras A escravidão tirou os negros de suas terras A escravidão criou favelas e presídios A escravidão criou ditaduras e corrupções A escravidão terceiriza nossas conquistas A escravidão criou a danada da polícia

– A cada 23 minutos um jovem negro é morto! Quem é você, Brasil? Temos dívidas, Brasil!

Autorretrato: Leonardo Francellino

O que é ser um escritor negro no Brasil?

Ser escritor negro no Brasil é ser apagado, é ser reconhecido somente como escritor marginal e não como um escritor comum, como todos os outros. Não  somos iguais aos Drummonds brasileiros.

Somos encondidos pela branquitude literaria.

Ser um escritor negro no Brasil é passatempo, nunca seremos vistos como pensadores e inovadores.
Temos Machado de Assis o maior dos maiores, a constelação alfa, o sol das galáxias, mas e outros? Por quê  suas vozes são abafadas?
“O trauma que eu carrego para não ser mais um Preto fudido”, entende a frase? Entende o conceito de -escritor fodido?
A literatura brasileira têm cor e ela é branca.

Meu autorretrato é de um poeta, negro cis, desempregado: Professor-poeta-desempregado. Sou mais um dos milhões de “desocupados” do Brasil. E desta violência registrada em cartório eu tiro minha poesia. Minha poesia não é marginal, minha poesia é revoltada mesmo, é inteligente; tem poucas rimas, mas têm pegada, pegadadenegaopoeta. Sentiu o drama?

Ao leitor que agora se segura na cadeira eu digo: vamos viajar muito é dialogar sobre muitas questões e se você for um escritor negro e se sentiu representando, me chame quero te conhecer.

Axé!

Sobre cabelo, transição capilar e marcadores de negritude: um olhar Transmasculino Negro

                                                                           

A mais ou menos um ano eu resolvi deixar meu cabelo crescer novamente, eu já tive o cabelo na altura do glúteo, e dessa vez de maneira livre por eu querer e não por uma “imposição do gênero feminino”. Conforme ele foi crescendo eu fui cada vez mais percebendo como essa atitude perpassava de maneira bem específica na minha vida.

De cabelo raspado, as pessoas me olhavam, e dependendo do local, rolava racismo. Observei pessoas brancas se encolherem ou se sentirem ameaçadas. Quando o black ficou aparente, aí muitas reações somatizaram. Parecia que eu realmente era uma pessoa que estava ameaçando aquele local ou aquelas pessoas.

O cabelo cresceu e eu comecei a usar rabo de cavalo, ficou parecendo um coque, e mais uma vez a leitura mudou. Por eu estar de coquinho, algumas pessoas me olhavam com espanto, não sei ao certo, mas fiquei com a impressão que a leitura era que me viam como um homem negro gay, e que pra ser gay não pode ser negro. E aí o espanto.

Todas essas marcações e experiências que eu tive talvez fossem encaradas de maneira diferente se eu não fosse homem trans. E eu penso no quanto essa leitura e essa obrigatoriedade que as pessoas têm de acharem que temos que seguir uma norma pré-estabelecida, que geralmente é branca e cisgênera, esquecendo que essa maneira de se expressar não é a única.

Eu estive em processo de transição capilar e naquele momento, vivi e tive experiências diversas quanto a estar com pessoas, lugares e espaços diferentes e pude perceber quanto o racismo se manifesta de maneiras diferentes e na minha vivência enquanto homem negro trans, isso se dá de maneira muito subjetiva, específica e que se misturam muito com demais marcadores sociais de classe, raça e gênero. Como se os homens negros trans não pudessem ser femininos, gays, ter posturas não normativas e por aí vai. Porque o que esperam de nós enquanto homem negro é que a gente vá absorver toda a cultura racista de masculinidade negra que nos foi imposta de maneira errada, e quando homens negros trans manifestam posturas diferentes existe o espanto e até a dúvida se de fato é trans. Esses marcadores negativos da masculinidade negra são oriundos do processo de escravidão e quem impôs isso foi o sistema de branquitude.

O que quero dizer, é que a construção da minha masculinidade, está diretamente ligada ao fato de eu ser um homem negro e trans e ser um homem trans potencializa ainda mais marcadores de opressão racistas que são muito sutis e se misturam. Por isso, também, é tão difícil as pessoas entenderem que quando são racistas comigo são transfóbicas e quando são transfóbicas são racistas. Pelo simples fato de não ter como dissociar o ser negro, do ser trans, do ser homem negro e por final do ser homem negro trans.

Um exemplo que fica, é como a cultura negra é subjugada e negada, como se fosse algo ruim ou menor, a ponto de marcadores de raça serem colocados como algo ofensivo. Dizer que uma pessoa que descoloriu o cabelo, fica parecendo com um cantor de pagode pode causar um “sofrimento” enorme em pessoas brancas e isso não é por acaso. Muitos meninos negros descolorem o cabelo e são rotulados de pivete e bandido na rua por policiais e pela sociedade e nesse sentido é uma “ofensa muito grande” quando a gente apenas faz um comentário, sem maldade alguma. A maldade está na cabeça da pessoa branca que se ofende exatamente por se imaginar nesse lugar do pivete e do bandido. Usar como referência uma pessoa de camada social mais baixa, que representa isso, ou uma pessoa negra, não precisa ser encarado como algo depreciativo ou ofensivo. É apenas uma referência não hegemônica e as pessoas brancas (não apenas brancas, mas principalmente) precisam perceber que entender esse tipo de referência como algo ofensivo é racismo, elitismo.

Associar esse tipo de manifestação capilar com pagode, com negritude, sem levar em conta que muitos homens e meninos negros de periferia tingem o cabelo dessa maneira assim como alguns pagodeiros, sem considerar algo bom ou bonito, fica evidente o racismo. Eles entendem essa atitude, não como chacota ou como brincadeira, se sentem lindos. Usar uma referência negra pra elogiar alguém é errado? Entendo que não são apenas pessoas negras que descolorem o cabelo, mas são as pessoas negras que descolorem que são julgadas erradas, que são lidas como marginais. Que tanto medo e esse de ser comparada a uma pessoa com marcadores não hegemônicos e ter como marcador principal o cabelo?

Se fosse um Brad Pitt, ou um outro ator, cantor branco loiro, poderia?

Nesse sentido, mais uma vez fica nítido, como o racismo pras pessoas que não são atingidas, aparece de uma maneira e pra pessoas negras de outra, ou seja, alguém se beneficia enquanto outras são descriminadas, excluídas e lidas como marginais. E quando isso se dá na subjetividade que é a transmasculinidade negra, se torna algo quase que inimaginável. Pois, as marcações são outras, a vivência de homens negros trans são outras e nada disso é levado em conta quando se ofende ou quando um homem negro trans passa por situações de racismo. Nesse caso, a leitura social cisgênera que muitos homens negros trans possuem não ajuda, pelo contrário. E não tem como colocar esses tipos de violência apenas como racismo, pra mim é transfobia também. E por isso a linha tênue fica muito específica pra nós, mas pra outras pessoas que não tem esse tipo de experiências fica algo distante.

E entendo que em relação a outras pessoas trans pode existir leitura de privilégio, mas o contexto muitas das vezes é um forte marcador pra isso.

Quando apontamos a branquitude, estamos dizendo do sistema de poder branco e não a pessoa em específico, não é individual. As pessoas são ensinadas a serem racistas, e isso precisa ser entendido mais do que nunca pelas pessoas brancas, cis e trans. Só assim elas vão passar a reconhecer seus privilégios enquanto pessoas brancas e quem sabe, possam repensar suas atitudes e pensamentos.

Fraternidade no Brasil com um Agradecimento Consciente*

Recentemente, tive a oportunidade de ser convidado por Leonardo Peçanha, o fundador de Negros Blogueiros, para escrever alguns dos meus pensamentos sobre a minha experiência como um homem trans Afro-Americano. Como um mano mais velho, um das minhas vantagens é a capacidade de sentar e tentar observar as coisas com uma jornada mais longa de humildade e paciência.

Assim como as estações; palavras, preocupações, economia e plataformas políticas também mudam com as gerações dependendo de suas experiências de necessidade e como isso nos afeta diretamente. Na minha visita ao Rio de Janario o que eu confirmei foi quanto trabalho precisa ser feito em um nível geográfico de conversa, e de compartilhamento de recursos para os homens trans. Enquanto um americano com plano de saúde, acesso a emprego, e a certas leis escritas (não é necessariamente aplicadas), eu sei que este é um privilégio em si mesmo.

Ao falar com os manos do Brasil e ter compartilhado histórias sobre o apoio familiar versus nenhum apoio familiar, saúde e acesso a T e procedimentos cirúrgicos versus nenhum; eu não tenho palavras para expressar o quanto você se torna humilde em sua própria experiência de conforto. Em meus 15 anos de transição que tenho visto o tempo passar, e expressão de identidade masculina muda ao longo dos anos, e uma das coisas mais importantes que gostaria de dizer que todos nós precisamos é de apoio e um senso de comunidade. Estes manos aqui realmente se preocupam um com o outro, e uma união de fraternidade toma uma presença muito forte no espaço.

Como um mano mais velho dos Estados Unidos, eu tenho pensado com foco na minha diferença na comunidade trans. Como muitos americanos, à medida que envelhecemos nossas vozes tornam-se menos dignas de experiência ou conhecimento, mas o que foi interessante aqui é que qualquer conhecimento foi muito valoroso. Se nós, como americanos que temos acesso a procedimentos médicos e hormônios, estamos em um ritmo acelerado nos movendo em direção aos nosso novos futuros em nosso corpos adequados, prestamos pouca atenção para aqueles deixados pra trás com poucos recursos dentro de nossas próprias comunidades, imagine fora do nosso local geográfico imediato.

Enquanto homens trans no Brasil podem não ter os mesmos problemas de violência na mesma medida que as mulheres trans, há algo a ser dito sobre nenhum reconhecimento, levando a uma posição com nenhum recurso. Assim como muitos nos Estados Unidos, desemprego para os homens trans no Brasil é alto; levando a uma dependência muito maior sobre a família, que nem sempre reconhece e oferece pouco apoio para o seu gênero apropriado. Irmandade, sem concorrência, mas com mais foco na luta é uma grande necessidade para percebermos que o conhecimento de gênero versus acessibilidade ainda é algo que é mais importante que a transição física em si. Transição física nem sempre é algo facilmente disponível, seja nos EUA ou no Brasil, mas entre os manos daqui o que eu testemunhei é a importância ter reconhecimento da sua verdade, e a força que eles tinham dentro de si pela sobrevivência um do outro.

Fiquei muito orgulhoso de ter conhecido estes manos, e sou grato por ter testemunhado sua fraternidade. Tenho idade suficiente para lembrar quando recursos como T, procedimentos cirúrgicos e terapia não estavam disponíveis, e homens trans encontravam maneiras de cuidar de si mesmos como nos tempos de clínicas de aborto de fundo de quintal, enquanto muitos de nós vivemos com o coração partido e a dor diária de estar preso em um corpo que não representa a nossa alma. Nossas comunidades estão se expandindo em uma base diária em todo o mundo dando menos atenção a histórias de sobrevivência de nossas vidas antes, e em constraste focando muito na nossa pós transição. Esse encontro para mim representou e me lembrou de quão longe eu vim, de como eu tive lutas grandes na minha própria jornada; (Como ter de processar o meu empregador por discriminação) eu nunca posso esquecer o que me fez fazer as escolhas que fiz para a transição. Agradeço a estes irmãos pela sua apreciação de mim, e me dar mais apreço do contexto maior da nossa luta para garantir que todos os manos trans possam avançar como os homens que eles são.

Para Samuel, Patrick e Leonardo, obrigado por serem pioneiros em liderança, espírito e apoio em uma fraternidade trans.

* Tradução: Dora Santana.

Brotherhood in Brazil with Conscious Appreciation

I recently had the opportunity to be asked by Leonardo Pecanha, the founder of Negros Blogueiros to write some of my thoughts about my experience as an African American transgender male. As an older brother, one of my greatest new assets is to sit back and try to observe things with a longer scope of humbleness, humility, and patience.

Like seasons; words, concerns, economics, and political platforms change with generations depending on your experiences of need and how that directly affect us. In my visit to Rio de Janeiro what I have confirmed is how much work needs to be done on a geographical level of conversation, and shared resources for transgender males. As an American with health care, access to employment, and certain laws written ( not necessarily enforced) I know that this is a privilege within itself.

In talking to brothers from Brazil and shared stories about family support vs. non family support, health and access to t and surgical procedures, vs none; I cannot begin to express how much you become humbled in your own experience of comfort. In my 15 years in transition I have seen times pass, and expression of male identity change throughout the years, and one of the most important resources that I would say we all need is support and a sense of community. These brothers really cared about each other, and a unity of brotherhood had a very strong presence in the room.

As an older brother from America I thought about my difference in community in focus. Like many Americans as we get older our voices become less worthy of experience or knowledge, but what was interesting here is that any knowledge was of substance. While we as Americans have access to medical procedures and hormones we are In a fast pace race to move on to our new futures in our correct bodies, giving few look back to those behind in resources in our own communities let alone outside of our immediate geographical location.

While transgender males in Brazil may not have the same issues of violence as transgender women there is something to be said about no acknowledgement at all, giving a place of no resources. Like many in the US unemployment for trans males in Brazil is high; giving a much more higher reliance of family that does not always acknowledge and little support in your proper gender. Brotherhood without competition but more focused on the struggle is a very strong level of need to realize that knowledge of gender vs. accessibility is still something that is more important than the actual physical transition. Physical transition is not always something easily available, be it in the US or Brazil, but among these brothers what I witnessed is an importance to have acknowledgement of their truth, and the strength that they had within themselves for each other’s survival.

I was very proud to have met these brothers, and felt the appreciation of having something to witness in their brotherhood. I am old enough to remember when resources like t, surgical procedures, and therapy was to no available, and transgender males found ways to take care of themselves much like the days of back room abortion clinics, while many of us lived in the hard ache and daily pain of being stuck in a body that did not represent our soul. Our communities are expanding on a daily basis across the globe giving less stories of survival of our lives before, as opposed to being so focused so much on the after transition. This meeting for me represented and reminded me of how far I have come, while I have had major struggles in my own journey; ( such as having to sue my employer for discrimination) I can never forget what made me make the choices that I made to transition. I thank these brothers for their appreciation of me, and giving me more appreciation of the bigger picture of our struggle to make sure all trans brothers can move forward as the men that they are.

To Samuel, Patrick and Leonardo, thanks for being pioneers in leadership, spirit and support in trans brotherhood.

Tradução: James Baldwin, Minha prisão estremeceu (do livro The fire next time)

Quero compartilhar uma tradução que fiz de um texto de James Baldwin. Trata-se da carta My Dungeon Shook — Letter to my Nephew on the One Hundredth Anniversary of Emancipation, que integra o livro The fire next time, publicado em 1963.

O livro foi publicado numa época de grande agitação em torno das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. James Baldwin, um dos grandes autores negros estadunidenses, traz a temática racial ao longo de toda sua obra, e The fire next time é um de seus livros mais celebrados.

Antes de passar à tradução propriamente dita, faço duas observações: primeiro, optei por não traduzir o termo nigger, que é uma palavra com conteúdo extremamente ofensivo (tanto que muitas vezes a palavra nem é escrita por inteiro, mas mencionada como the ‘n’ word) no contexto estadunidense, sendo utilizado como xingamento dirigido a pessoas negras. Podemos pensar num significado próximo a preto sujo, neguinho, crioulo. A segunda observação é com relação ao uso intercalado de você e teu, tua. Optei por fazer tal utilização para manter um tom mais coloquial para a carta, que penso refletir melhor o conteúdo do texto original.

Minha prisão estremeceu: carta para meu sobrinho no centésimo aniversário da emancipação

Querido James,

   Cinco vezes eu comecei essa carta, e cinco vezes eu a rasguei. Eu fico vendo seu rosto, que é também o rosto de seu pai, meu irmão. Assim como ele, você é duro, sombrio, vulnerável, genioso – com uma tendência muito clara para soar truculento, porque você não quer que ninguém pense que você é frágil. Talvez você seja como seu avô quanto a isso, não sei, mas com certeza você e seu pai são muito parecidos com ele fisicamente. Bem, ele está morto, ele nunca te viu, e ele teve uma vida terrível; ele foi vencido muito antes de morrer porque, no fundo de seu coração, ele realmente acreditou nas coisas que as pessoas brancas disseram sobre ele. Essa é uma das razões pelas quais ele se tornou tão religioso. Eu tenho certeza que seu pai te falou algo sobre isso. Nem você nem seu pai mostram qualquer tendência para religiosidade: vocês são de uma outra era, parte do que aconteceu quando o negro deixou sua terra e veio para o que o falecido E. Franklin Frazier chamou de “cidades da destruição”. Você só pode ser destruído se acreditar que você é aquilo que o mundo branco chama de nigger. Eu te digo isso porque eu te amo, e, por favor, não se esqueça disso jamais.

Eu conheci vocês dois a vida toda, carreguei seu pai nos meus braços e ombros, beijei e bati nele e o vi aprender a andar. Não sei se você já conheceu alguém assim há tanto tempo; se você já amou alguém assim ao longo de tanto tempo, primeiro como bebê, depois como criança, depois como um homem, você passa a ter uma estranha perspectiva sobre tempo e dor e esforço. Outras pessoas não conseguem ver o que eu vejo sempre que eu olho o rosto de seu pai, pois por trás do rosto dele como é hoje estão todos os rostos que já foram dele. Quando ele gargalha, eu vejo um porão do qual seu pai não se lembra e uma casa da qual ele não se lembra, e eu escuto na risada de hoje a risada dele quando criança. Deixe-o praguejar e eu me lembro dele caindo dos degraus do porão, e reclamando, e eu lembro, com dor, de suas lágrimas, que minhas mãos e as de sua avó tão facilmente enxugavam. Mas as mãos de ninguém conseguem enxugar as lágrimas que ele derrama invisivelmente hoje, que podem ser ouvidas em sua risada e em suas falas e em suas canções. Eu sei o que o mundo fez ao meu irmão e como foi sufocante pra ele sobreviver a isso. E eu sei, o que é muito pior, e é esse o crime do qual eu acuso meu país e meus conterrâneos, e que nem eu, nem o tempo nem a história jamais perdoaremos, que eles destruíram e estão destruindo centenas de milhares de vidas, e não o sabem e nem querem saber. As pessoas devem ser, e na verdade se esforçam para ser duras e filosóficas com relação a destruição e morte, e é nisto que a maior parte da humanidade tem sido boa desde que se tem notícia dos seres humanos. (Mas lembre-se: a maior parte da humanidade não é toda a humanidade). Mas não é admissível que os autores da destruição também sejam inocentes. É a inocência que constitui o crime.

Agora, meu xará, esse povo inocente e bem intencionado, seus conterrâneos, fizeram com que você nascesse em condições não muito diferentes daquelas descritas pra nós por Charles Dickens na Londres de mais de cem anos atrás. (Eu ouço o coro dos inocentes gritando “Não, isso não é verdade! Como você é amargo!” – mas eu estou escrevendo esta carta para você, para tentar te dizer alguma coisa sobre como lidar com eles, pois a maioria deles sequer sabe que você existe. Eu sei as condições nas quais você nasceu, pois eu estava lá. Seus conterrâneos não estavam lá, e ainda não estão. Sua avó também estava lá, e ninguém jamais a acusou de ser amarga. Sugiro que os inocentes confirmem com ela. Não é difícil achá-la. Seus conterrâneos também não sabem que ela existe, embora ela tenha trabalhado pra eles durante as vidas deles inteiras).

Pois bem, você nasceu, aqui está, coisa de quinze anos atrás; e embora seu pai, sua mãe e sua avó, olhando as ruas pelas quais te carregavam, vigiando as paredes nas quais eles te trouxeram, tivessem todos os motivos se sentirem melancólicos e com os corações pesados, eles não o fizeram. Pois aqui você está, Grande James, batizado com meu nome – você foi um bebê grande, eu não – aqui você está: para ser amado. Para ser amado, meu caro, com força, de uma vez, e pra sempre, pra te fortalecer contra o mundo sem amor. Lembre-se disso: eu sei quão negro isso parece hoje pra você. Parecia ruim naquele dia também, sim, nós estávamos tremendo. Nós ainda não paramos de tremer, mas se nós não tivéssemos amado uns aos outros, nenhum de nós teria sobrevivido. E agora você deve sobreviver porque nós te amamos, e pelos seus filhos, e pelos filhos dos seus filhos.

Este país inocente te jogou num gueto no qual, de fato, era esperado que você morresse. Deixe-me colocar com todas as letras exatamente o que eu quero dizer, pois o coração da matéria está aqui, bem como a origem da minha luta com meu país. Você nasceu onde nasceu e encarou o futuro que encarou porque você é negro e por nenhum outro motivo. Esperava-se que os limites de sua ambição estivessem, então, estabelecidos pra sempre. Você nasceu numa sociedade que disse com todas as letras e com brutal clareza, e de tantas maneiras quantas fossem possíveis, que você era um ser humano sem valor. Não era esperado de você que aspirasse a excelência: esperava-se que você se conformasse com a mediocridade. Onde quer que você tenha ido, James, eu seu curto tempo nesta terra, foi dito a você onde você poderia ir e o que poderia fazer (e como poderia fazê-lo) e onde poderia viver, e com quem poderia se casar.

Eu sei que seus conterrâneos não concordam comigo sobre isso, e eu os ouço dizer “Você está exagerando”. Eles não conhecem o Harlem, e eu conheço. Você também. Não aceite as palavras de ninguém para nada, inclusive as minhas – mas confie na sua experiência. Saiba de onde você veio. Se você souber de onde você veio, não haverá de verdade nenhum limite para onde você pode ir. Os detalhes e símbolos de sua vida foram deliberadamente construídos para fazer você acreditar no que as pessoas brancas dizem sobre você. Eu te peço, tente lembrar que o que eles acreditam, bem como o que eles fazem e causam sofrimento em você, não atestam a tua inferioridade, mas sim a desumanidade deles, e o medo.

Por favor tente ser claro, meu querido James, em meio à tempestade que enfurece sua jovem cabeça hoje, sobre a realidade que está por trás das palavras “aceitação” e “integração”. Não há motivo pra você tentar ser como as pessoas brancas, e não há base alguma para a impertinente suposição deles de que eles devem aceitar você. O que é verdadeiramente terrível, meu camarada, é que você deve aceitá-los. E eu digo isso muito seriamente. Você deve aceitá-los, e aceitá-los com amor. Pois esse povo inocente não tem outra esperança. Eles estão, na verdade, ainda presos a uma história que eles não entendem; e até que eles a entendam, eles não podem ser libertados. Eles tiveram que acreditar, por muitos anos e por inúmeras razões, que os homens negros são inferiores aos homens brancos.

Muitos deles, na verdade, sabem que não é assim, mas, como você descobrirá, as pessoas acham muito difícil agir de acordo com o que sabem. Agir é estar comprometido, e estar comprometido é estar em perigo. Nesse caso, o perigo, nas mentes de muitos americanos brancos, é a perda de suas identidades. Tente imaginar como você se sentiria se você acordasse uma manhã e encontrasse o sol brilhando e todas as estrelas em chamas. Você ficaria apavorado porque está fora da ordem natural. Qualquer perturbação no universo é assustadora porque ataca profundamente o senso de realidade. Ora, o homem negro tem funcionado no mundo do homem branco como uma estrela fixa, um pilar imóvel: e à medida que ele se move, céu e terra são chacoalhados desde as profundezas.

Você, não tenha medo. Eu disse que era esperado que você fosse destruído no gueto, morresse por nunca ser permitido ir além das definições do homem branco, por nunca ser permitido soletrar seu próprio nome. Você, e muitos de nós, derrotamos essa intenção; e, por uma terrível lei, um terrível paradoxo, aqueles inocentes que acreditavam que teu aprisionamento os deixaria mais seguros, agora perdem a compreensão da realidade. Mas esses homens são seus irmãos – seus perdidos e mais novos irmãos. E se a palavra integração significa algo, isto é o que ela significa: que nós, com amor, devemos forçar nossos irmãos a se enxergar como são, a parar de escapar da realidade e começar a mudá-la.  Pois esta é a sua casa, meu amigo: não permita que te expulsem dela; grandes homens alcançaram grandes feitos aqui, e o farão de novo, e nós podemos fazer da América o que a América deve ser.

Será difícil, James, mas você descende de fortes camponeses, de homens que colheram algodão e represaram rios e construíram estradas de ferro e que, enquanto passavam pelos mais indescritíveis terrores, alcançaram uma inquestionável e monumental dignidade. Você vem de uma longa linhagem de grandes poetas, alguns dos maiores desde Homero. Um deles disse “No instante em que pensei não haver mais solução, minha prisão estremeceu, e as correntes foram ao chão”.

Você sabe, eu sei, que o país celebrará cem anos de liberdade, cem anos muito em breve. Nós não poderemos ser livres até que eles sejam livres. Deus te abençoe, James, e que Ele te acompanhe.

Seu tio,

James

Não precisamos falar sobre o Holiday (ou Da espantosa humanidade dos negros)

A recente eleição de Fernando Holiday, uma das lideranças do MBL – Movimento Brasil Livre, para a Câmara paulistana promoveu nova onda de comentários acerca dos posicionamentos do futuro vereador de São Paulo. Holiday é negro e gay, e se posiciona contra pautas historicamente defendidas pelos movimentos negros, como a política de cotas raciais e a comemoração do dia 20 de novembro como dia da consciência negra. Para muitas pessoas as posições de Holiday geram espanto: como pode um negro ser contra o movimento negro? Entender a essência de tal espanto é importante e revelador. E para fazer isso, não precisamos falar sobre o Holiday.

Começo por pontos que deveriam ser obviedades: negros são humanos, e humanos são diversos. Portanto, a diversidade entre os negros não deveria gerar nenhum tipo de surpresa. O fato de a política brasileira há tempos ser dominada por homens brancos e ainda assim exibir uma pluralidade de visões mostra que pertencimento étnico-racial não determina alinhamento político. Por que, então, espera-se que todos os negros tenham o mesmo posicionamento político? O racismo apaga singularidades e subjetividades e desumaniza as pessoas negras, reduzindo-as a uma única coisa: uma massa negra. Despidas de sua humanidade, as pessoas negras passam a ser um todo homogêneo, sem distinções interiores.

Uma das consequências da diversidade negra é a existência de debates internos. Debater é saudável, e um debate sério pode produzir muitas coisas interessantes. No entanto, quando o debate se dá entre negros, não é incomum vermos setores brancos politizados (lembremos: o racismo no Brasil é ambidestro) usar a existência de divergência como arma para desqualificar a questão: “nem eles mesmos sabem o que querem!”. A ausência de homogeneidade entre brancos nunca foi impeditivo para nada. Aliás, sempre foi considerada como prova de sofisticação, pois enriquece o debate e demonstra a convivência democrática com a pluralidade. Se a ausência de homogeneidade ocorre entre negros, aí a coisa muda de figura: o discurso da sofisticação é substituído pela visão de um povo que não sabe o que quer, que é briguento e discute por coisas sem importância.

Superada a primeira obviedade e sabendo que os negros não são monolíticos, passo à segunda obviedade: discussão política se faz com argumento político, não com racismo. Na arena política, não vale tudo pra ganhar um debate, e lançar mão de racismo para derrotar um interlocutor negro, por mais tacanho que tal interlocutor possa ser (pois da humanidade dos negros decorre a existência de negros de diversos tipos, incluindo negros brilhantes e também negros tacanhos), é tão criminoso quanto atitudes racistas em outros contextos. Para muitas pessoas pode parecer que discordar de um interlocutor negro já é, por si, um ato de racismo. Embora tal visão seja tola, ela se integra bem ao raciocínio daqueles que enxergam os negros como homogêneos: com tal suposição, atacar um negro é quase como atacar a negritude. De forma análoga, ter um único amigo negro atesta proximidade com todos os negros, e assim obtemos de forma lógica o famoso “Não sou racista, tenho um amigo negro”. É fácil perceber que além da suposição da homogeneidade, há outro erro no raciocínio: a confusão entre argumento e argumentador.

É interessante lembrar dos ensinamentos de Cornel West, filósofo negro estadunidense. No texto As armadilhas do raciocínio de base racial, publicado em 1994, West relembra o caso da indicação de Clarence Thomas, figura problemática para o movimento negro de seu país, à Suprema Corte no governo Bush. Para West, a adoção de noções rebaixadas de negritude e autenticidade negra fez com que o movimento negro tivesse dificuldade para criticar Thomas. West enfatiza que, para além do aspecto físico, a negritude também é composta por escolhas éticas e políticas relacionadas ao combate ao racismo. Na ausência de uma concepção amadurecida de identidade negra, os debates políticos ficam rebaixados a uma questão de pigmentação, criando, nas palavras de West, “um enganoso manto de consenso racial”.

Reconhecer a humanidade dos negros não é nenhum favor. Eu, negro, não agradeço ninguém por reconhecer que sou humano. Tal reconhecimento é, no campo político, condição necessária para existência de uma política minimamente séria. Aqueles que não conseguirem digerir as consequências da humanidade negra continuarão nadando contra a corrente, numa tentativa frustrada de sobreviver a uma avalanche de fatos que contrariam suas análises rasas. Que se afoguem todos.

Mercado negro dos afetos

Ao longo da construção de minha masculinidade, sempre me foi posto a masculinidade hegemônica como um ideal a ser perseguido, como um ponto de chegada a minha caminhada. Esta, porém, sendo branca, classista, normativa e opressora, sempre se pôs a mim como algo inalcançável.

Dentro da subjetividade negra e transmasculina, não há como negar o limbo que nos é imposto perante o imaginário social e o mundo dos afetos. Enquanto mulher negra, foi me ensinado que quanto menos questionasse, mais seria aceita. Que não era de bom tom bancar a “louca”, assim, aceitando tudo de forma muito pacífica. Por outro lado, observo escrevivências de homens negros cisgêneros que também tiveram em sua socialização uma cartilha a seguir, afinal, são séculos de uma reputação viril, maquinada, e até me arrisco a dizer, coisificada. Ousar a desviar de ambos os padrões, é apostar em deboches, escárnio e até mesmo afastamento social.

Muitas são as subjetividades e problemáticas que perpassam a afetividade negra. A coisificação do homem negro, negando sua condição humana, restringindo-se unicamente a suas aptidões físicas e sexuais. Corpos que não só geram desconfiança, mas também corpos que despertam curiosidades e fetiches. Fetiches estes que, quando lançados, influenciam diretamente as relações interpessoais e afetivas, ocorrendo anulação das subjetividades e declínio da afetividade.

Quantos romances em novelas, teatros ou cinemas foram protagonizados por homens negros? Na vida real não é muito diferente. Como bem nos lembra Fanon (1983), a característica principal do homem negro é sua cor, sua etnia e, como tal, não possui sexualidade e sim sexo – um atributo que exala masculinidade ao mesmo tempo em que se assemelha a um animal em contraste com o homem branco. Ainda hoje, podemos observar esse estereótipo do imaginário social ainda ser reproduzido em várias esferas artísticas.

Não podemos esquecer também dos recortes corporais e indenitários. Na esfera homoafetiva masculina, por exemplo, onde gays negros afeminados são rechaçados, vítimas de agressões, chacotas e também solidão. Há também os homens trans negros, que são altamente cobrados por não exercerem a masculinidade negra genuína, reforçando a coisificação e falocentrismo que permeia a negritude masculina. E quantos de nós, negros e negras, compactuamos com isso? Quantos de nós ignoramos as subjetividades humanas além da cor e não adotamos discursos e pensamentos interseccionais?

No ensaio “Vivendo de amor”, Bell Hooks nos esclarece alguns pontos: “A prática de se reprimir os sentimentos como estratégia de sobrevivência continuou a ser um aspecto da vida dos negros, mesmo depois da escravidão. Como o racismo e a supremacia dos brancos não foram eliminados com a abolição da escravatura, os negros tiveram que manter certas barreiras emocionais. E, de uma maneira geral, muitos negros passaram a acreditar que a capacidade de se conter as emoções era uma característica positiva. ”

Infelizmente assim, muitos de nós continuam. Interpretando papéis impostos, negando vontades, nos colocando em segundo plano.

Já não faço mais contas de quantas vezes ao cumprimentar os homens – em sua grande maioria negros – preferiram apenas um sinal com a cabeça, a contato físico (como um aperto de mão), agindo como alguém que preserva sua masculinidade. Não tento mais me inserir. A legitimação de pertencimento ao ‘clube do bolinha’, muita das vezes perpassa por machimos, misoginias, lgbtfobias, entre outras opressões. Não abro mão da minha feminilidade masculina.

Hoje, recusar minha ‘passabilidade’ (um tipo de privilégio por ser reconhecido socialmente como um homem cisgênero – não trans) de modo a afirmar minha transgeneriedade é um ato polítco. Reivindico meu direito e me permito ser um monstro. Um monstro que também é digno de receber e prover afetos.

 

FANON, Frantz. Peles Negras, Máscaras Brancas. Rio de Janeiro: Fator. 1983

HOOKS, Bell. Vivendo de amor. Disponível em: < https://drive.google.com/file/d/0B2_ZK-qR9WEKZDk4ZTM3MDQtNTlkZS00NjAxLTkyYWQtMDc4YzUwNDgxYmY4/view?pref=2&pli=1>  Traduzido por Maísa Mendonça

Não amarás – Teófilo Reis

Polônia, década de 1980. Um homem jovem fica obcecado por uma mulher mais velha que ele. Ele a espiona, providencia formas invasivas de encontrá-la, viola sua correspondência, procura maneiras de boicotar os encontros românticos de sua admirada. Depois de algum tempo nutrindo um amor platônico, o jovem finalmente se declara e diz estar amando. O sentimento não é correspondido: inicialmente a resposta é ríspida, e num segundo momento, sarcástica. O jovem tenta se matar, e sua musa se enche de um sincero sentimento de culpa pelo ocorrido.

    O parágrafo acima é meu resumo do filme Não amarás, dirigido pelo polonês Krzysztof Kieslowski.

    Brasil, anos 2000. Um homem jovem e negro desde a tenra infância é visto como um futuro garanhão. A sexualidade descontrolada e selvagem, que desde então atribuem à criança, é tida como chave de leitura para seu futuro. Suas ações são vistas de forma sexualizada: toda aproximação com relação a meninas é tida como mostra do apetite sexual. A ojeriza a tocar outros homens também é estimulada desde pequeno. Qualquer atitude que possa vir a ser interpretada como o que se considera feminina é prontamente coibida e ridicularizada.

    As possibilidades de afeto na vida de um homem negro são atravessadas não só pela masculinidade, mas também pela negritude. Há questões importantes que devem ser levadas em consideração quando voltamos nossa atenção para o afeto na vida dos homens negros. Como podemos pensar a possibilidade de afeto ao mesmo tempo em que a imagem que se faz do homem negro é a de um predador sexual com uma tendência inata para a violência? Como se dar direito ao afeto quando a auto-imagem é frequentemente calcada em valores desumanizantes?

    A masculinidade tida como padrão impõe aos homens, desde pequenos, uma série de proibições que devem ser observadas para se “garantir” o merecimento do título de homem. Na sociedade machista em que vivemos, esse padrão comportamental é tido como o natural, o correto. Qualquer desvio, por mínimo que seja, implica numa imediata reclassificação, passando-se do que nossa sociedade misógina classifica como céu diretamente para o que é tido como o inferno: o homem torna-se uma mulherzinha. A este padrão de comportamento dividido por gênero acrescenta-se um componente racial, que retira das pessoas negras sua humanidade e as dota de sexualidade e brutalidade: saem de cena seres humanos negros e sobem ao palco da história brasileira a mulata fogosa e o negão insaciável, ambos excelentes para o sexo e para o trabalho pesado, mas indignos de respeito, pois são violentos, estúpidos e pouco confiáveis. Se não são dignos de respeito, o que dizer de cuidado, de carinho, de amor?

    Como sujeitos inseridos na sociedade, muitos de nós, homens negros, tendemos a nos comportar como os demais homens, e portanto a ter comportamentos machistas. A aceitação tácita de uma noção tacanha de masculinidade – opressora por si só, e em especial para nós negros – cria barreiras que podem dificultar nossa capacidade de estarmos abertos para dar e receber afeto. Se para entrar no clubinho da masculinidade há um preço a se pagar, o ingresso dos homens negros é mais caro que o dos homens brancos: nossa sexualidade é mais vigiada, nosso corpo deve se encaixar num estereótipo, nossas preferências precisam estar de acordo com o que desejam de nós, e não com o que de fato desejamos.

    Enquanto indivíduos que vivem numa sociedade hetero e cis-normativa, infelizmente também estamos propensos a reproduzir atitudes precoceituosas com relação a sexualidades e identidades de gênero. Precisamos descontruir em nós os preconceitos, precisamos lembrar que afeto e ato sexual são coisas distintas, para que possamos receber mais afetos e ser mais afetuosos. Quantos de nós não deixam de abraçar ou beijar outros homens próximos a nós, como pai e irmãos?

    Os efeitos do racismo por si só já são pesados demais para que tenhamos que carregar adicionalmente o fardo de uma noção obtusa de masculinidade. Penso que a saída – coletiva e a longo prazo – não está em “subir o valor do ingresso” pra todo mundo. Se for interessante manter o clubinho da masculinidade existindo (e acho interessante pensar se realmente vale a pena), precisamos, no mínimo, de uma mudança radical. Precisamos de masculinidades leves e não opressivas, que não imponham obstáculos para a felicidade. Precisamos de uma sociedade sem racismo, sem machismo, sem transfobia, sem lgbt-fobia, sem discriminações. Enquanto lutamos para construir essa sociedade, vamos levando nossas vidas. Vamos resistindo e questionando o lugar de ausência de afetos que nos foi relegado. Ao não amarás que nos é dito, respondemos com a crítica de que objetificação não é amor, obsessão não é carinho, controle não é cuidado, e que queremos afetos verdadeiros. Na nossa versão de Não amarás, não aceitaremos abuso como se fosse algo bom, e não nos sentiremos culpados por fazê-lo.

    Encerro com um relato bastante pessoal. Aqueles que me conhecem pessoalmente sabem que sou bastante reservado. Há algum tempo percebi que eu tinha dificuldade de tocar as pessoas, mesmo as mais próximas. Aos poucos comecei a me questionar os motivos desta dificuldade, e tentei contorná-la, por ser algo que eu percebia estar me distanciando de pessoas queridas. Neste processo de entendimento de minhas atitudes, medos e reservas, me conheci melhor, entendi melhor meu lugar na sociedade. Do não amarás até o amarás a ti mesmo e aos próximos, o caminho é longo, mas a jornada é muito gratificante. Para aqueles que tiveram sua humanidade negada, o amor a si próprio e aos seus impõe uma derrota a uma ideologia que há tempos paira sobre nossa sociedade e nossos ombros. Sigamos cada vez mais vitoriosos.

Como matar lentamente a si mesmo e os outros e continuar vivendo? Alan Augusto Ribeiro

Como matar lentamente a si mesmo e os outros e continuar vivendo?

Paradoxal, contraditória, direcionada e interessada. Depois de ler o livro Solidão)(1), de J. Cacioppo e W. Patrick, fiquei me perguntando por que estas quatro palavras são usadas repetidamente (e, de certo modo, enigmaticamente!) neste livro para discutir a relação que eles definem como “complexa e obscura” entre desejos, emoções e afetos? Procurei construir uma resposta que pudesse me ajudar a escrever algo sobre o tema “masculinidades negras, emoções e política dos afetos”, escolhido para a produção dos textos deste mês aqui no blog. Fiz o seguinte: separei o “paradoxo e a contradição” do “interesse e o direcionamento“. As duas primeiras palavras me fizeram pensar em como as exigências pelo domínio sobre si eram frágeis, de modo que nossa vontade de poder controlar os modos pelos quais sentimos o que sentimos, manipular o que, como e quem desejamos e direcionar os nossos afetos era limitada. Estas duas primeiras palavras estariam, deste modo, fora de nosso completo domínio individual, estariam além de nossas possibilidades de controle sócio-político e simbólico sobre nós mesmos. Já as duas outras palavras me fizeram pensar que nossos desejos, emoções e afetos não estariam fora do alcance de nossa consciência. Elas se situariam dentro de relações vividas, fazendo com que acreditemos ser possível conduzir e decifrar intencionalmente nossos desejos, emoções e afetos como se fossem forças manipuláveis pela vontade individual. De acordo com as duas últimas palavras, estipulei que poderia pensar em um lugar autônomo do sujeito na História, fazendo-o reaparecer como um ser livre e atuante sobre os próprios sentimentos. Porém, notei que esta leitura dicotômica é uma armadilha: paradoxo, contradição, direcionamento e interesse devem ser vistos mais como elementos correlacionados do que como duplas de opostos, como constituintes de uma totalidade complexa que não nos comprime e não foge de nós, não se submete à nós, não está sob nosso controle e não regula nossas maneiras de sentir, não nos manda e não nos obedece.

Notei também outro problema: estou começando a ver em alguns destes Nós vantagens e desvantagens. “Nós negros” ou “nós homens negros” são retóricas que ajudam em algumas coisas, mas nos iludem em outras, explicam certos processos, mas escondem outros. Tenho 7 irmãos homens negros pobres e vários amigos homens negros pobres, mas sou o único homem negro pobre do meu bairro que teve acesso à um conjunto de discursos e narrativas analíticas que permitem com que eu manipule, diante de uma elite formalmente intelectualizada e informada politicamente, este Nós, possibilitando ilações como “nós somos”, “nós queremos”, “nós sentimos”, “nós desejamos”.

Neste ponto retorno ao enigma das quatro palavras. Sei que muitos de Nós vivem e sentem esta relação complexa e obscura, mesmo que sonhem por um “amor com a nossa cor”! Alguns de nós anseiam por um “amor afrocentrado” que possa reconstituir nossa “família negra”! Isto que alguns de nós acredita estar buscando já existe, mesmo que fora de moldes ideológicos trazidos pelo ativismo político! Muitos vínculos afetivo-sexuais “com a nossa cor” tem se sustentado entre muitos de Nós, há muito tempo! Sou de uma família cheia de relacionamentos entre homens negros e mulheres negras que estão juntos há mais de 30 anos! No texto anterior escrito para este blog, argumentei que o nosso problema não são relações que não existem, mas a qualidade das relações que existem! Sugeri que temos contrabandeado discursivamente experiências individuais como se fossem coletivas e interpretado experiências coletivas como se fossem individuais! É por esta razão que o “Nós” deve saber de que “Nós” estamos falando. Precisamos desfazer um “nó” malfeito neste Nós! Não é todo mundo que acredita que processos psicossociais, conflitos simbólicos e políticas relacionais presentes em sistemas de opressão raciais, sexuais, de gênero e de classe incidem nesta relação entre desejos, emoções e afetos e fazem com que muitos de Nós, homens negros, não consigam lidar com valores como ternura, docilidade e carinho, dificultando renúncias e resignações diante de quem amamos, vendo no espelho este amor com a nossa cor! A maioria de nós, homens negros está dando a mínima para qualquer discussão sobre emoções, afetos e masculinidades negras. Será mesmo? Sei que bell hooks desconfia disso!

Homens negros são vistos como incapazes para articular totalmente e reconhecer a dor das suas vidas. Eles não têm um discurso público nem audiência na sociedade racista que lhes permitam dar voz a sua dor. Infelizmente, os homens negros muitas vezes evocam uma retórica racista que identifica o homem negro como um animal, falando de si mesmos como ‘espécies em vias de extinção’, como ‘primitivos’, em sua tentativa de obter o reconhecimento do seu sofrimento.(…) Quando os jovens negros adquirem uma poderosa voz e presença pública via produção cultural, como já aconteceu com a explosão da música rap, isso não significa que tenham um veículo que lhes permita articular essa dor (hooks, 1992; 35)(2).

       

Esta última afirmação de bell hooks poderia ser invertida sem perder o potencial crítico: foi a música rap que, contemporaneamente, se apresentou como um dos poucos instrumentos públicos por meio do qual esta dor vivida por muitos homens negros urbanos está sendo apresentada, mesmo que esta exposição não traga detalhamentos acerca de certas complexidades psicológica do Eu. Ao nos trazer descrições de contradições vivenciadas diante de realidades sociais excludentes vividas por homens negros, o rap aponta para um caminho por meio do qual podemos discutir tais dores e sofrimentos, mesmo que não o faça com detalhes necessários. De fato, ainda não explicitamos no discurso público que o privilégio masculino nos isenta de um conjunto de preocupações e problemas relacionados aos afetos e emoções vividos por pessoas com quem temos vínculos diretos, como irmães e irmãos, mães e pais, companheiras e companheiros de afeto e de desejo, negros e brancos, mesmo em situação de pobreza e exclusão. Embora isto não nos garanta muito coisa, mesmo que “Nós” homens negros não estejamos preocupados com muitas fragilidades e sofrimentos sociais vividos por outros grupos de pessoas, precisamos falar de sofrimentos e fragilidades, pois isso se contrapõem aos discursos racistas e sexistas! Não existe imunidade emocional quando nós e outras pessoas dizem que somos fortes e resistentes. Ser o “negão”, o “cara grande”, o “forte”, é uma armadilha! Sabemos que existem não-ditos escondidos dentro da gente que nos impedem de falar sobre o que está nos corroendo por dentro; algumas vezes, a gente subscreve estes tropos do “forte”, do “negão”, do “quente”, do “macho”!

Neste mesmo texto, bell hooks assinala que as dificuldades de falar sobre esta dor diz respeito ao modo como brutalização, virilidade e truculência aparecem como ambivalências complexas nas emocionalidades vivenciadas por muitos homens negros. Minha mãe, corrigindo o “filho mal-criado”, espancava-me com um grande pedaço de madeira porque eu “aguentava umas pauladas”. Eu era “grandão”! Ela dizia que “queria o meu bem”, apesar de tudo. Tive uma namorada que queria que eu fosse carinhoso e afetuoso, atenciosos e dedicado, e viril na hora do sexo, incansável. Eu também queria isto dela, mas achava que uma coisa não podia estar ao lado da outra. Sentia-me respeitado pelos caras da minha rua porque era “grandão” e “bom de porrada”, mesmo que fosse isolado de alguns “rolês” porque estudava demais. Minha professora apreciava a dedicação aos estudos porque era difícil que um cara “como eu” fosse dedicado aos estudos!

 Pessoas brutalizam você de um jeito tão sub-reptício e eficiente, durante tanto tempo, que isto pode te levar a pensar que você precisa ser um bruto truculento para ser uma pessoa respeitada. Você começa a pensar que o temor que causa nas pessoas é respeito; isto te enche de “auto-estima”, até o momento em que você percebe que está colocando para fora ressentimentos, afastando, amedrontando e confundindo as pessoas que estão perto de você. Entenda que isto foi colocado dentro de nós, não nasceu conosco! A virilidade pode até nos defender daquilo que julgamos como abusos e desrespeitos, pode até fazer com que a gente pense que está se preservando, fazendo com que nos deleitemos sobre nossa suposta capacidade de provocar prazer sexual, mas ela pode te isolar, afastar aqueles que querem fortalecer você e te apoiar como um sujeito que tem mentalidades e corporalidades, não apenas cabeça e corpo. Se você é brutalizado, visto como um sujeito truculento e viril durante muito tempo, começará a acreditar que não precisa de outras “forças” para ser um sujeito. Eu não quero ser um “espírito opaco”, um “coração ferido” que confunde “recomeçar” com “desistir”! (“Vida loka II, Racionais”)

Devemos perceber que, no momento em que nossa subjetividade é coisificada, nossas complexidades ontológicas são reduzidas ao simplório estereotipado da subordinação política. Neste movimento, estas complexidades passam a ser explicadas somente pela exlcusão, pela marginalização, pela violência, pela virulência: homens negros passam a ser vistos por dentro da hierarquia e da desigualdade, nunca pode dentro dos modos pelos quais estes corpos são masculinidades e racializadas em suas próprias experiências. Mesmo que sujeitos, esta reflexão nos registra como meros predicados! Neste debate sobre desejos, emoções e afetos, um modo de sair deste círculo de reificação no qual as masculinidades negras tem sidos colocadas na história do racismo e do sexismo brasileiro pode estar na estratégias narrativas tecidas pelos próprios sujeitos que vivenciam estas masculinidades racializadas, podendo ser vistas sob a fragmentação e a contradição:

Devemos fazer a nossa História, buscando nós mesmos, jogando [com o] nosso inconsciente, [com] nossas frustações, [com] nossos complexos, estudando-os, não os enganando. Só assim poderemos nos entender e fazer-nos aceitar como somos, antes de mais nada pretos, brasileiros, sem sermos confundidos com os americanos ou africanos, pois nossa História é outra como é outra nossa problemática (Nascimento apud Ratts, 2007; 97)(3).
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Precisamos tensionar uma lógica binária de pensamento que divide o mundo entre maldade e bondade, positivo e negativo, inferior e superior. Se privilégio é não se preocupar e não se responsabilizar com um conjunto de coisas, de modo que este conjunto de coisas passa a não existir para quem vivencia privilégios, então podemos enfrentar esta fronteira: precisamos descobrir o que os privilégios supostamente colocam para fora do discurso, para fora das narrativas conhecidas e dos vocabulários analíticos e políticos que estão sendo (re)produzidos até este momento de nossa história político-intelectual. Que conjunto de práticas existenciais, vivências políticas e processos simbólicos os diferentes homens negros podem descrever com detalhes e acuidade porque são construídos socialmente como diferentes homens e negros? Como descrever práticas, vivências e processos que estão fora das preocupações destes homens negros? Como conciliar preocupações e vivências com uma “política da responsabilidade com outros sujeitos”? Eu posso ser responsável pelas pessoas com quem me relaciono afetivamente não porque sou um corpo masculinizado e racializado, mas porque esta responsabilidade me ajuda a enfrentar fastasmas raciais que fazem surgir medos masculinos (e vice-versa) que surgem diante do espelho das desigualdades. Somente podemos sentir a precarização de nossas vidas como homens e negros se acreditarmos que existe apenas a masculinidade patriarcal, heterossexual e branca do mundo perfeito! Masculinidades racializadas devem começar a ser vistas como experiências que articulam em torno dos sujeitos que as vivenciam um conjunto de fragilidades afetivas e de sofrimentos emocionais, uma série de contradições psicológicas e de paradoxos políticos. Masculinidades racializadas não estão acopladas nos corpos de homens negros, pois elas não nascem nestes corpos, são colocadas forçosamente nestes corpos. Será que precisamos acessar a masculinidade patriarcal e branca para para sermos sujeitos de uma história, sujeitos que respeitam outros sujeitos? Não, não precisamos desta masculinidade para sermos sujeitos no mundo, para sermos sujeitos para nós mesmos.

Para entendermos como homens negros de diferentes orientações sexuais, de diferentes classe sociais, de distintas orientações políticas, são racializados e masculinizados no contexto brasileiro, precisamos decifrar o que temos chamado de masculinidades negras fora de uma leitura dicotômica entre mente e corpo que retira sofrimentos, sensibilidades, emocionalidades, interesses, intencionalidades e direcionamentos utilitaristas, contradições e paradoxos das vivências destes diferentes homens negros, deixando de conceber o que é geral no particular, evitando particularizar o que é geral.

        Alguns dias atrás estava me perguntando: se na sociedade brasileira homens negros jovens estão morrendo antes mesmo de completar a maturidade, porque esta sociedade precisa prepará-los para lidar com as complexidades da vida social? Se ele pode morrer antes dos 30 anos (e/ou matar para não morrrer!), por que precisa ser educado, escolarizado, sensibilizado, integrado, familiarizado, socializado e amado para uma vida longa? De todo modo, se você chegou até aqui (se é homem negro, está vivo e tem mais de 30 anos) e está lendo este texto confessional, deve estar se perguntando o porquê do título que escolhi. Se você se sentiu provocado por tudo o que leu, então deve ter compreendido minhas provocações! Minha inspiração é o livro sem tradução para o português chamado How to slowly kill yourself and others in America, do escritor negro gay Kiese Laymon (2013; 43), que consiste em um conjunto de textos escritos para mulheres e homens negros, vivos e mortos, familiares e amigos que estiveram e estão na vida de Laymon. O objetivo do livro de Laymon “(…) não é escrever sobre liberdade, mas falar sobre sobrevivência, benefícios e pesos de ser negro”. Este livro tem me inspirado a escrever um livro próprio que consiste em um conjunto de cartas para homens e mulheres negras de minha vida. Neste livro, escreverei para os homens e mulheres negras que estão vivos, considerando-os como se estivessem mortos, advertindo-os sobre como poderíamos nos manter “vivos” diante da violência sexista e racista. Para os segundos, os que estão vivos, tentarei explicar como poderíamos fazer de nossas vidas uma passagem melhor, mesmo diante destas violências que nos tornam “mortos-vivos”! Espero que a mensagem deste livro seja cruel, mórbida, mas esperançosa, auto-defensiva e minimamente honesta, pois quero me ressuscitar como um homem negro feito na contradição e no conflito e vivo. Quero advertir outras pessoas sobre os perigos e delícias de uma vida repleta de rasuras emocionais, riscos afetivos e desejos ambivalentes! Quero terminar com uma mensagem sombria que recebi tempos atrás de uma mãe-de-santo: “meu filho, teu coração tá na cabeça, tua cabeça tá no teu corpo e o teu corpo tá no teu coração!”

(1) CACIOPPO, John; PATRICK, William. Solidão: a natureza humana e a necessidade de vínculo social. São Paulo, Editora Record, 2010.

(2) HOOKS, Bell. Black Looks: Race and Representation. Boston: South End Press, 1992.

(3) RATTS, Alex. Eu Sou Atlântica: Sobre a Trajetoria de Vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial e Instituto Kwanza, 2007.